
“… ‘é lícito ou não pagar tributo a César? Devemos pagar ou não?’. Jesus, conhecendo-lhes a hipocrisia, respondeu: ‘Porque me tentais? Trazei-me um denário para Eu ver’. Trouxeram-lho e Ele perguntou: ‘De quem é esta imagem e a inscrição?’ Responderam: ‘De César’. Jesus disse: ‘Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus’.” (Marcos 12,14b-17a)
O comentário de São João Crisóstomo sobre esta passagem do Evangelho lido nesta segunda-feira sublinha que a “imagem e a inscrição” (de César) dizem respeito à obediência civil, isto é, aos impostos, enquanto “o que é de Deus” refere-se à alma humana, que traz em si a imagem de Deus. A nossa “alma”, por vezes chamada de “coração”, é aquilo que nos mantém vivos, o que nos faz pulsar. Sem ela, estaríamos mortos. A nossa alma contém a nossa lealdade mais profunda, o nosso sentido de pertencimento e de propósito, bem como a nossa consciência, a capacidade de discernir entre o certo e o errado, o santo e o não santo. Não devemos oferecer a nossa alma ou o nosso coração a César, porque não pertencemos a César, mas a Deus.
No nosso estado decaído, quando o coração ou a alma se encontram divididos nas suas lealdades, a nossa visão sobre quem somos e a quem pertencemos torna-se obscurecida. Começamos então a entregar a César, ou a outra pessoa qualquer, aquilo que pertence a Deus, como a nossa lealdade primordial, a própria consciência ou até a nossa adoração. Deixamos de “ver” com clareza por causa desse coração confuso, desse coração impuro.
Os fariseus, que juntamente com os partidários de Herodes colocaram a Cristo a pergunta acima citada, eram conhecidos pela sua hipocrisia. Gostavam de “rezar de pé nas sinagogas e nos cantos das ruas, para serem vistos pelos homens” (Mateus 6,5). Assim, a sua visão não estava voltada para Deus, mas para os “outros”, oferecendo aos “outros” aquilo que pertence a Deus.
Na nossa vida pessoal, podemos cair numa relação de codependência, na qual estamos dispostos a fazer qualquer coisa por alguém, mesmo que isso signifique ultrapassar a nossa própria consciência. Também isso é um exemplo de entregar a alguém aquilo que pertence a Deus. Na vida política, podemos acabar por adotar como nossos os critérios de certo e errado de “César”, mesmo quando não correspondem aos de Deus. Nesse caso, estamos a dar a César o que é de Deus.
Muito disso se vê atualmente, quando muitos cristãos procuram justificar o injustificável em questões políticas ou geopolíticas, argumentando a partir de uma lógica de “pragmatismo”, “Realpolitik”, “lei do país” ou outras expressões que pretendem tornar correto aquilo que é claramente errado.
Senhor, concede-nos sabedoria e cura os nossos corações, para que possamos ver com mais clareza quem somos e a quem pertencemos.
“Felizes os puros de coração, porque verão a Deus” (Mateus 5,8).
Versão brasileira: João Antunes
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