DEVEMOS FUGIR PARA OS MONTES?

Quando virdes a abominação da desolação instalada onde não deve estar — entenda quem lê! — então os que estiverem na Judeia fujam para os montes;… Em verdade vos digo: Não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam.” (Marcos 13,14.30)

Neste tempo que antecede a Quaresma, encontramos várias leituras do Evangelho segundo Marcos com tonalidade escatológica. Elas falam conosco de modos diferentes em momentos distintos da nossa vida, porque dizem respeito não apenas ao fim dos tempos no sentido da “Segunda Vinda”, mas também ao nosso próprio e pessoal fim do tempo nesta terra, quando faremos a passagem desta vida para a vida eterna. Ao longo dos séculos, essas leituras também falaram a diferentes gerações de cristãos em outros momentos de transição, em tempos de cataclismos e crises, sejam eles políticos ou pessoais. É por isso que o Senhor afirma aqui que “esta geração”, à qual Ele se dirige, “não passará sem que todas estas coisas aconteçam”. Ele continua a dizê-lo a “esta geração” no sentido de nós, que lemos as Suas palavras, juntamente com as palavras do profeta Daniel sobre a “abominação da desolação”, procurando compreendê-las no nosso próprio contexto, como Ele nos pede quando diz: “entenda quem lê”.

O que diz o profeta Daniel acerca da “abominação da desolação” e como poderíamos “fugir para os montes”, se aplicarmos a nós mesmos a instrução que o Senhor dirige “aos que estão na Judeia”? Daniel fala dessa abominação em três passagens (Daniel 9,27; 11,31; 12,11). Em cada uma delas, o profeta descreve um governante futuro que fará cessar o sacrifício diário e, em seu lugar, instalará um ídolo no templo. Conseguimos pensar em algum governante ou autoridade do nosso mundo que tenha impedido os cristãos de oferecer diariamente o sacrifício a Deus, para nós conhecido como “o sacrifício de louvor”, a θυσία αἰνέσεως ou жертва хваления, pelo qual nos oferecemos a nós mesmos, como Igreja, a Deus, não apenas na liturgia eucarística, mas também nas nossas orações diárias e agradecidas, e que, em vez disso, nos tenha levado a sacrificar a nossa consciência e o nosso bom senso a algum tipo de ídolo? Se a nossa primeira reação foi pensar em líderes políticos, tentemos aplicar isso também à nossa vida pessoal. Não haverá, talvez, alguém ou algo que tenha passado a governar a nossa vida, se escorregamos para uma espécie de codependência, obsessão ou vício, que nos leva a fazer sacrifícios diários que não deveríamos fazer?

O Senhor diz-nos, diante de situações como essas, que devemos “fugir para os montes”. Permito-me entender isso não de forma literal, mas alegórica, pois nunca ouvi dizer que a geração dos santos apóstolos tenha literalmente fugido para os montes. Nós “fugimos para os montes” quando “mudamos a nossa mente”, isto é, quando nos arrependemos e redirecionamos o nosso foco para o Altíssimo, o nosso verdadeiro Deus, e para a Sua verdade, os Seus princípios e valores. Como rezamos no Salmo 121(120): “Levanto os olhos para os montes: de onde me virá o auxílio? O meu auxílio vem do SENHOR…”. Poderíamos dizê-lo de outra forma: nós nos elevamos, quando eles decrescem. Não cedemos ao conjunto de princípios ou valores “deles”, ou à sua falta, mas deixamos que a palavra simples, embora nada fácil, de Deus volte a assumir o controle dos nossos corações, ao nos entregarmos novamente a Ele.

Senhor, ajuda-nos a recuperar o nosso foco em Ti, em Ti mesmo, nesta terça-feira, pelas orações de todos os Teus santos. Amén.

Versão brasileira: João Antunes

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