POR QUE NÃO JEJUAMOS NESTA QUARTA E SEXTA-FEIRA?

Nesta semana, após o Domingo do Publicano e do Fariseu, os cristãos ortodoxos não observam o jejum habitual de quarta e sexta-feira. Costuma-se presumir que a razão disso seja o exercício da humildade, para que não sejamos como o Fariseu da parábola (Lucas 18,9-14), que se vangloriava em sua oração, dizendo: “Ó Deus, dou-te graças por não ser como o resto dos homens… Jejuo duas vezes por semana…” (o que significava às segundas e quintas-feiras).

No entanto, essa não é a razão apresentada pelo Typikon Eslavo, o livro que regula a ordem dos ofícios litúrgicos e as normas de jejum ao longo do ano eclesiástico. Segundo o Typikon, não jejuamos nesta semana porque existem heterodoxos, ou “pessoas de pensamento diverso”, que jejuam neste período (“nesta semana, os de pensamento diverso mantêm o jejum”). Assim, não jejuamos para “desfazer o mandamento de tal heresia”.

O jejum “herético” ao qual o Typikon se refere é o jejum de três dias conhecido como Jejum dos Ninivitas, que faz memória do arrependimento de Nínive e os três dias de Jonas no ventre do peixe, observado três semanas antes da Grande Quaresma em várias tradições das Igrejas Ortodoxas.

A razão mais comum para não jejuar nesta semana (não ser como o Fariseu) e a razão do Typikon (não ser como os heterodoxos) são semelhantes no sentido de que, em ambos os casos, o não jejuar funciona como um exercício de construção de identidade. “Nós” afirmamos, ao seguir um calendário de jejum diferente do “deles”, que “nós” não somos “eles”.

Hoje, numa época que valoriza o multiculturalismo e à luz do diálogo ecumênico com as Igrejas Ortodoxas, alguém pode considerar, no mínimo, de mau gosto jejuar ou deixar de jejuar como forma de se diferenciar dos “outros” ou até de depreciar suas tradições, como o Typikon faz explicitamente. Indo além, isso poderia até nos tornar semelhantes ao Fariseu que se gabava: “não ser como o resto dos homens”.

Mas há algo importante sobre as tradições de jejum, ou sobre tradições alimentares em geral. Seja nas proibições bíblicas de certos alimentos no Judaísmo, no Ramadã do Islã, no jejum da Quarta-feira de Cinzas nas Igrejas cristãs ocidentais, no sacramento central do Cristianismo de comer e beber o Corpo e o Sangue de Cristo, ou até na tradição de comer peru no Dia de Ação de Graças nos Estados Unidos, todas essas práticas sempre tiveram uma função de construção de identidade, lembrando às pessoas que as observam quem “elas” são.

Na tradição cristã, a primeira menção ao jejum de quarta e sexta-feira aparece no final do século I, no Didaquê, e afirma explicitamente que “nós” jejuamos nesses dias para não jejuar às segundas e quintas-feiras, como se fazia no Judaísmo. O Didaquê expressa isso de forma bastante direta, e pouco politicamente correta: “não jejueis com os hipócritas, pois eles jejuam às segundas e quintas-feiras”.

Dito tudo isso, hoje não nos incomoda o fato de que, neste ano, o primeiro dia do Ramadã coincida com a Quarta-feira de Cinzas (18 de fevereiro), o início da Quaresma para os cristãos ocidentais. E, embora a maioria das Igrejas Ortodoxas inicie a Quaresma na segunda-feira seguinte, nosso período de jejum se sobreporá ao jejum tanto dos muçulmanos quanto dos cristãos não-ortodoxos, algo que também não incomoda ninguém, nem mesmo o Typikon.

Isso nos mostra que o princípio de não jejuar junto com “os outros” não foi aplicado de forma consistente ao longo do desenvolvimento de nossas tradições, mesmo existindo regras de jejum bastante distintas entre as diversas culturas eclesiais.

Conclusões:

1. A disposição de evitar ou depreciar tradições “outras” em função da coincidência de períodos de jejum enfraqueceu ao longo do tempo.
2. A função identitária de nossos jejuns e festas continua viva, e isso não é algo negativo nesta era de “fluidez”, desde que se deixe de lado a lógica preconceituosa presente no Typikon e no Didaquê citados acima.

Jejuamos ou não jejuamos em comunidade, não porque sejamos melhores ou piores do que os “outros”, mas de acordo com as tradições de nossa própria cultura ou comunidade eclesial. Isso nos recorda quem “nós” somos, com todas as nossas imperfeições, enquanto comunidade.

Versão brasileira: João Antunes

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