UMA LEIGA ABENÇOA UM PADRE

Quando [Santa Maria do Egito] se voltou para Zózimo disse: — ‘Por que desejaste, Pai Zózimo, ver uma mulher pecadora? O que desejas ouvir ou aprender de mim, tu que não te encolheste diante de grandes obstáculos?’. Zózimo atirou-se ao chão e pediu-lhe a benção. Ela igualmente se curvou diante dele. E assim, ficaram no chão, prostrados, pedindo a bênção um do outro. E apenas uma palavra podia ser ouvida de ambos: ‘Abençoe-me!’. Depois de um tempo a mulher disse a Zózimo: — ‘Pai Zózimo, és tu quem deves abençoar e rezar. Tu és dignificado com a ordem do sacerdócio e por muitos anos tens estado diante do altar sagrado, oferecendo o sacrifício dos Divinos Mistérios’. Isto deixou Zózimo apavorado. Finalmente, com lágrimas ele disse a ela: — ‘Oh Mãe, cheia do espírito, por teu modo de vida é evidente que vives com Deus e morreste para o mundo. A Graça a ti concedida é aparente — pois me chamaste pelo meu nome e soubeste que sou um sacerdote, embora nunca me tenhas visto antes. A Graça é reconhecida não por uma ordem mas pelos dons do Espírito, então, conceda-me tua benção pelo amor de Deus, pois necessito de tuas preces’. Então, cedendo ao desejo do ancião ela disse: — ‘Abençoado é Deus que zela pela salvação dos homens e de suas almas’.” (A Vida de Santa Maria do Egito, atribuída a Sofrônio de Jerusalém)

Entre os muitos momentos não muito “politicamente corretos” da Vida de Santa Maria do Egito, lidos nas Matinas da quinta quinta-feira da Quaresma, o citado acima sempre chama minha atenção. Zósimo, que é um hieromonge [um monge ordenado sacerdote], está pedindo, não, melhor dizendo, implorando “com lágrimas”, a bênção de uma mulher. Uma mulher leiga. E Zósimo observa que “a Graça é reconhecida não por uma ordem mas pelos dons do Espírito”. Embora esta afirmação seja “não muito politicamente correta” para a eclesiologia Ortodoxa, é inegavelmente uma parte da nossa cultura eclesial e da Tradição. É por isso que lemos a vida desta leiga, ano após ano, a cada Quaresma, e a celebramos.

Hoje eu tiro uma lição básica desta história, sobre a abertura do Espírito Santo para todos nós, independentemente do nosso gênero, ou “ordem”, ou qualquer outra coisa, quando nos abrimos a participar da Sua graça. Todos nós podemos, de fato, ser abençoados, e também dar “bênção” (“ev-logia” em grego, que significa “uma boa palavra”) ao nosso mundo e àqueles que encontramos, quando escolhemos abraçar a “boa” Palavra de Deus, o eterno “Logos” e nosso Senhor, Jesus Cristo, — em vez de “outras” palavras e narrativas da realidade, como as vozes em nossas próprias cabeças ou outras fontes de opinião meramente humana.

Portanto, que eu seja abençoado esta manhã, no “deserto” da minha quarentena aqui em Viena, reconectando-me com o Espírito de Deus por meio de alguma oração sincera, para que eu possa abençoar, durante toda a minha agenda de hoje. Santa Mãe Maria, rogai a Deus por nós!

Versão brasileira: João Antunes

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