AS BENÇÃOS DO CRISTIANISMO “OCIDENTAL”

Olhai à vossa volta, Sião, e vede! Pois eis que como faróis divinamente iluminados, vossos filhos vem à vós do Ocidente, do Norte, do Mar [Sul] e do Oriente, bendizendo a Vós ó Cristo por todos os séculos.” (Cânon Pascal de São João Damasceno, Ode 8)

Nesta terça-feira, estou viajando para Roma, uma cidade onde morei e estudei por vários anos, com alguns dos padres mais generosos e mais instruídos que já conheci. Refiro-me aos luminares jesuítas da erudição teológica do Pontifício Instituto Oriental, aos quais sou eternamente grata, não apenas pela hospitalidade e educação que recebi deles, mas por sua abertura e dedicação em aprender sobre minha tradição. Nesta quinta-feira, terei a honra de fazer uma apresentação para eles sobre meu novo livro, sobre a oração diária na tradição cristã Ortodoxa.

Enquanto me dirijo para o centro do Cristianismo “Ocidental”, estou pensando no Tropário do Cânon Pascal Bizantino, citado acima, que se refere a “Sião”, que na hinografia bizantina representa a Igreja, e que destaca os filhos de Sião se reunindo de todos os confins da terra — em primeiro lugar, “do Ocidente”, e depois os do Norte, do Mar [Sul] e do Oriente, “como faróis divinamente iluminados”. É claro que estou ciente do fato de que o Cânon Pascal foi composto bem antes da ruptura entre a minha Igreja e a Igreja Católica Romana, e muito antes da retórica antiocidental em minha Igreja nos dias de hoje. Mas também sou grata pelo fato de que hoje cantamos esse texto como ele foi escrito por São João Damasceno na primeira metade do século VIII, quando aqueles que bendizem a Cristo “do Ocidente”, como a maioria dos que estão lendo esta pequena reflexão, estão listados entre, ou melhor dizendo, em primeiro lugar, como “faróis divinamente iluminados”. Porque muita luz continua a entrar em nossa Igreja “do Ocidente”, na qual e da qual recebemos tanta hospitalidade e educação (como eu recebi e recebo), e da qual continuamos a ter muito o que aprender. Ouso dizer que nossas divisões devem existir para que possamos crescer e aprender mais sobre nós mesmos, pois é mais fácil nos enxergarmos quando estamos em contato com os “outros”. Como diz São Paulo: “E até importa que haja entre vós facções, para que os aprovados (dokimoi, testados e comprovados como confiáveis) se tornem manifestos entre vós” (1ª Coríntios 11,19). Graças Te dou, Senhor, por todos nós, do Ocidente, do Norte, do Mar [Sul] e do Oriente, e, por favor, ajuda-me a permanecer sempre dócil.

Versão brasileira: João Antunes

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