
Neste “Domingo do Paralítico”, quando em nossas Igrejas celebramos a cura de um homem que esteve na piscina de Betesda “que padecia da sua doença” há trinta e oito anos, eu me pergunto por que em nossa tradição o chamamos de “paralítico”. Fisicamente, ele não estava totalmente paralisado. De alguma forma, ele era capaz de se mover, embora lentamente, sem ajuda. Podemos ver isso em sua resposta à pergunta do Senhor: “Queres ficar são?”, ao que o homem responde: “Senhor, não tenho ninguém que me meta na piscina quando se agita a água, pois, enquanto eu vou, algum outro desce antes de mim” (João 5,7).
Penso que sua paralisia era espiritual, no sentido de que ele não podia mais pedir ajuda, nem mesmo ousar querer ser curado, mesmo quando um Consolador mais poderoso do que todos os outros estava diante dele. Esse é o tipo de paralisia que podemos experimentar de vez em quando, ou mesmo por muitos anos, quando nem sequer tentamos pedir a Deus ou a outras pessoas a ajuda de que precisamos desesperadamente. No caso desse homem, o próprio Senhor inicia a conversa: “Queres ficar são?”. E embora a resposta do homem não seja exatamente um “Sim”, isso é suficiente para que sua cura comece. Quero dizer, sua cura física, depois da qual o Senhor o incentiva a cuidar de sua cura espiritual: “Vê lá: ficaste curado. Não peques mais (miketi amartane), para que não te suceda coisa ainda pior”. Qual foi o “pecado” do homem (“a-martia” em grego, que significa “errar o alvo”)? Não sei exatamente, mas envolvia o isolamento e o fato de não pedir ajuda.
Esta manhã, isso me recorda nossa tendência humana de, de vez em quando, nos isolarmos e nos desconectarmos de Deus e dos outros, por exemplo, em nossos vícios ou outras enfermidades, tanto físicas quanto espirituais. “Um vício decorre, antes de tudo, de uma falta de conexão”, li ou ouvi algures. Se estivermos presos nesse ou em algum outro tipo de rotina semelhante atualmente, ouçamos a voz de nosso Senhor, perguntando a cada um de nós: “Queres ficar são?”. E respondamos, da melhor forma possível, independentemente de nossas decepções, fracassos ou rejeições passadas. Nosso passado não é um leito no qual devemos nos deitar ou nos afundar em isolamento. Tampouco é um leito que precisamos esquecer ou negar. Podemos pegar nosso “leito” e caminhar, como fez o homem em Betesda, para que possamos nos conectar com outras pessoas e também beneficiar outras pessoas por meio de nossa nova experiência, força e esperança. Senhor, ajuda-me a ajudar a mim mesmo nesta manhã, enquanto me aproximo do Senhor e dos outros da melhor forma possível.
Versão brasileira: João Antunes
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