EU NÃO TENHO MARIDO

Como São João Evangelista sabia o que exatamente foi dito na conversa de Nosso Senhor com a mulher samaritana, quando ele não estava lá, mas foi ele quem mais tarde a registrou em seu Evangelho? Acho que ela lhe contou. João diz explicitamente que os discípulos não perguntaram ao Senhor sobre a conversa (João 4,27), portanto — ela deve ter contado a história. Sabemos que ela logo a seguir começou a contar o fato a outras pessoas em sua própria cidade. Assim, a conversa bastante longa de Nosso Senhor com a mulher samaritana — a conversa mais longa registrada que Ele teve com outra pessoa — pode ser descrita como um exemplo (para nós e por nós) do relato de uma mulher sobre “Como conheci Jesus Cristo”. Ela pode nos ajudar a reconhecer como nós também podemos “encontrá-l’O”, conhecê-l’O e crer n’Ele.

A conversa tem vários momentos reveladores, nos quais Ele gradualmente revela coisas importantes sobre Si mesmo, mas ela também gradualmente revela coisas importantes sobre si mesma. As “coisas” dela são seus questionamentos ou dúvidas, enquanto que as “coisas” d’Ele são as respostas a esses questionamentos ou dúvidas. A particularidade dela em que estou refletindo nesta manhã é sua confissão (depois que Ele finge não saber disso) de que ela “não tem marido”. Penso que essa era sua principal preocupação, ou o que ela sentia ser sua principal preocupação, que Cristo a levou a revelar, juntamente com suas indagações teológicas. É uma reminiscência do problema do paralítico na piscina de Betesda: “Senhor, não tenho ninguém”, disse ele, “que me meta na piscina…” (João 5,7). A confissão da mulher abre caminho para que Nosso Senhor Se revele a ela, como seu Senhor; como Alguém que já sabe tudo sobre ela, mas que de modo algum a despreza por causa disso. Porque aqui está Ele, conversando com ela e abrindo-lhe um novo Caminho que é a sua vocação.

Esta manhã estou refletindo sobre eu também não ter cônjuge. Muitas pessoas “não têm marido” (ou esposa), seja por opção ou não. Não confundamos a presença ou ausência de certos “outros” em nossa vida com um obstáculo para “encontrar” Cristo, iniciar uma conversa com Ele e beber de Sua “água viva”. Ele já sabe tudo a nosso respeito e não nos despreza por isso. “Senhor, dá-me dessa água”, nesta manhã, “para eu não ter sede”.

Versão brasileira: João Antunes

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