
“Ao saber que o seu parente ficara prisioneiro, Abrão armou trezentos e dezoito dos seus servos mais valentes, nascidos na sua casa, e perseguiu os inimigos até Dan.” (Gênesis 14,14)
Ontem, na Igreja Ortodoxa, celebramos o Domingo dos 318 Padres do Primeiro Concílio Ecumênico, que condenou a heresia de Ário e reafirmou nossa fé na divindade de Jesus Cristo. A primeira leitura do Antigo Testamento nas Vésperas foi de Gênesis 14, citada acima, onde consta o número 318, como o número de servos mais valentes que Abrão precisou para resgatar “o seu parente”. Qual é o significado do número 318, tanto na história do Primeiro Concílio Ecumênico quanto na história de Abrão resgatando seu parente? No grego antigo, os números são escritos por meio de letras, e a letras-número para 318 é “TIH”. Essas letras, como explica a Epístola de Barnabé, representam a cruz (porque o “T” ou “tau” se parece com uma cruz) e as duas primeiras letras do nome de Jesus (IHsous). Justino Mártir explicou que essas letras são o acrônimo de “Theos IHsous” (Deus Jesus). Embora as fontes cabalistas e gnósticas forneçam ainda outras explicações, a explicação cristã nos dá a entender que, nos casos do Primeiro Concílio Ecumênico e do resgate de Abrão de “seu parente”, a Igreja vê nosso “resgate” ou “salvação” como algo que não vem das (o número de) pessoas envolvidas, mas de Cristo.
Portanto, os números não são aleatórios na tradição da Igreja (pense na Ascensão no 40º dia, no Pentecostes no 50º dia ou nos 12 Apóstolos, um número que, por algum motivo, precisou ser mantido através da eleição de Matias), nem são aleatórios os números pelos quais ordenamos nossas vidas, quando estamos atentos a eles ao invés de temê-los. Por exemplo, quando observamos o número de horas ou minutos que passamos dormindo, ou nas mídias sociais, ou orando, ou lendo de forma salutar, ou praticando exercícios físicos; ou quando observamos nosso exato ganho ou perda de peso na balança; ou a quantidade de dinheiro que gastamos com isso ou aquilo; ou os horários e as datas exatas em que fomos ao dentista, ou visitamos um parente idoso, etc. — temos a tendência de ter mais ordem, mais disciplina em nossa vida, por estarmos atentos aos números. Ignorar os números, por outro lado, se o fazemos rotineiramente, nos levará a todo tipo de caos e, por fim, ao medo. É por isso que se diz que não se pode ser um discípulo sem disciplina. É também por isso que alguns filósofos antigos, como os pitagóricos, consideravam os números como sendo de origem divina. Que eu observe a força dos números em minha vida e seja grato por eles, tendo consciência deles, nesta segunda-feira.
Versão brasileira: João Antunes
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