
A leitura do Evangelho de hoje traz uma das passagens mais intrigantes de toda a Bíblia:
“Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada. Porque vim separar o filho do seu pai, a filha da sua mãe e a nora da sua sogra; de tal modo que os inimigos do homem serão os seus familiares.” (Mateus 10,34ss)
Que tipo de “espada” Nosso Senhor veio nos trazer — Ele que nunca pegou em armas e morreu nas mãos de homens violentos? Ele nos traz o que São Paulo (que morreu pela espada) chama de “a espada do Espírito, isto é, a palavra de Deus” (Efésios 6,17). É pelo e no Espírito Santo que adotamos a palavra de Deus e Sua verdade, que de vez em quando “corta” nossas ideologias mais populares. Hoje em dia, essas ideologias incluem “valores da família tradicionais”, em nome dos quais muitas pessoas, até mesmo aquelas que “são os nossos familiares” e em nossa própria igreja, estão dispostas a justificar e travar uma guerra.
Mas a palavra de Deus convive desconfortavelmente com a noção de “valores da família”, que na verdade não são “tradicionais” para o Cristianismo. A família era tudo, tanto para o povo judeu pré-cristão quanto para os pagãos. O nascimento biológico e a linhagem sanguínea de uma pessoa determinavam tudo o que ela seria, faria, acreditaria, com quem se casaria e assim por diante. Não havia “nascimento do alto” ou vocação, ou seja, um chamado de Deus, para libertar o indivíduo daquilo que ele era predeterminado pelo nascimento biológico. É por isso que Aquele Que escolheu nascer não em uma família tradicional, mas de uma Virgem que “não conhecia homem” (Lucas 1,34), proclama essa mudança radical em tudo isso, dizendo: “os inimigos do homem serão os seus familiares”.
O que isso significa para nós, em termos práticos? Devemos ver nossos entes mais queridos como “os vilões” em nossas vidas? Não. Isso significa que devemos tomar cuidado com os verdadeiros “bandidos” que estão interessados em nos pressionar por meio deles e de nossa própria tendência de idealizar ou até mesmo idolatrar a “família” e os “valores da família”. Em todos os nossos relacionamentos, não somos apenas um a um com outro ser humano, mas participa uma Terceira Pessoa, o Espírito Santo, Que traz um pouco de renovação ao conjunto. Ó Rei Celeste, vem e habita em nós hoje, e ajuda-nos a respeitar nossa própria liberdade e a dos outros, para que o verdadeiro amor e a verdadeira amizade possam prosperar entre nós, por Tua graça.
Versão brasileira: João Antunes
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