
“No tempo de Herodes, rei da Judeia, havia um sacerdote chamado Zacarias, da classe de Abias, cuja esposa era da descendência de Aarão e se chamava Isabel. Ambos eram justos diante de Deus, cumprindo irrepreensivelmente todos os mandamentos e preceitos do Senhor. Não tinham filhos, pois Isabel era estéril, e os dois eram de idade avançada.” (Lucas 1,5ss)
Até recentemente, o problema da infertilidade era atribuído apenas às mulheres, portanto, a “esterilidade” é uma questão explorada na Bíblia principalmente por meio de suas mulheres. Mas o tema recorrente bíblico da “mulher estéril” (há seis no Antigo Testamento e pelo menos duas no Novo Testamento) aponta para um problema de “infecundidade” compartilhado por todos nós, homens e mulheres, e para o verdadeiro Deus que soluciona esse problema para nós, quando permitimos.
Eu disse que há pelo menos duas “mulheres estéreis” no Novo Testamento, porque a própria Igreja, e todos nós, como Igreja, somos uma “mulher estéril”, tornada frutífera somente pela graça de Deus. Em nossa tradição, lemos as palavras de Isaías 54,1 como dirigidas a todos nós, como Igreja: “Exulta de alegria, estéril, tu que não tinhas filhos, entoa cânticos de júbilo, tu que não davas à luz, porque os filhos da desamparada são mais numerosos do que os da mulher casada. É o SENHOR quem o diz”.
Vivenciamos a “esterilidade” de diferentes maneiras: por meio de nossa lista mental de coisas que devemos fazer, que devemos ter, da procrastinação debilitante, do desânimo etc. À medida que envelhecemos, podemos desenvolver sentimentos de vergonha ou fracasso, não muito diferentes daqueles das “mulheres estéreis” bíblicas, por nossas “dívidas” (imaginárias ou reais) para conosco e para com os outros. Talvez, à medida que envelhecemos, tenhamos sentimentos de solidão, inutilidade e autopiedade ou aversão a nós mesmos e ressentimentos, que podem estar prejudicando nossa “fecundidade” e crescimento espiritual. Talvez o fato de sermos divorciados, viúvos, solteiros infelizes ou casados infelizes contribua para tudo isso.
Ainda podemos “frutificar”, independente de nossa idade, gênero, estado civil, etc.? Acredito que sim. Nós acreditamos que sim, como Igreja. Essa é uma das mensagens da celebração de hoje (no Calendário Juliano Revisado) da Natividade de São João Batista, que nasceu dos idosos Isabel e Zacarias. Outra mensagem dessa festa é: Às vezes, você só precisa esperar, enquanto cuida da sua própria vida [sem se intrometer ou julgar os outros] e promove sua fé por meio de atos concretos, de acordo com seu grande ou pequeno conjunto de responsabilidades cotidianas. Que possamos nos permitir crescer um pouco neste sábado, à luz de Deus, porque nada cresce na escuridão. Entreguemos a Ele todas as nossas “dívidas” e “devedores” (inclusive nós mesmos) e perdoemos, para que possamos seguir em frente em Sua luz e leveza.
Versão brasileira: João Antunes
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