
“Abraão respondeu-lhe [ao homem rico]: ‘Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em vida, enquanto Lázaro recebeu somente males. Agora, ele é consolado, enquanto tu és atormentado. Além disso, entre nós e vós há um grande abismo, de modo que, se alguém pretendesse passar daqui para junto de vós, não poderia fazê-lo, nem tão-pouco vir daí para junto de nós’.” (Lucas 16,25s)
Nossa capacidade de “passar” das trevas para a luz será interrompida na vida após a morte, onde não haverá tempo (e espaço) como os conhecemos aqui. É por isso que os anjos “caídos” parecem estar presos em sua escuridão, embora alguns pensem que Deus encontrará algum caminho de volta para eles, no tempo do cumprimento definitivo ou eschaton. Mas aqui na Terra, somos agraciados com a mudança e a mutabilidade do tempo e de nossos corpos físicos, que nos capacitam a nos mover e a mudar. “Viver é mudar, e ser perfeito é mudar frequentemente”, como disse John Henry Newman. Somos chamados constantemente a entrar na “pascha” ou Páscoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, das trevas para a luz e da morte para uma nova vida, em nosso trabalho diário de mudar o rumo quando perdemos o foco; de substituir o medo pela fé, o ressentimento pelo perdão e o isolamento pela comunhão.
Aqui somos dotados de fome e sede, tanto físicas quanto espirituais, que nos obrigam a nos mover e a buscar o que ou quem nos falta. A tragédia do “homem rico” na Parábola do Rico e de Lázaro citada acima é que ele aparentemente se tornou complacente com sua riqueza, como se tivesse tudo e todos de que precisava. Assim, ele não notou o mendigo Lázaro em seu portão, nem seu próprio vazio espiritual. Fisicamente, o homem rico estava completamente satisfeito, enquanto Lázaro sentia fome e sede. Esse estado de coisas não significava necessariamente que os dois homens terminariam como terminaram, o rico no inferno e o mendigo no seio de Abraão. Mas, evidentemente, Lázaro aproveitou sua fome e sede para buscar a realização além deste mundo que não lhe dava nada, enquanto o rico usou mal seus dons por meio do egocentrismo, que o impediu de se mover ou crescer além de si mesmo para servir ao “próximo”.
Que hoje eu possa me mover, caso tenha deslizado para o egocentrismo, e que eu esteja um pouco mais atento ao meu próprio vazio e a quaisquer “outros” que possam valorizar minha atenção. Senhor, ajuda-nos a sair da escuridão para a luz neste sábado, enquanto nos preparamos mais uma vez para celebrar Sua “Pascha” ou ressurreição amanhã, no domingo.
Versão brasileira: João Antunes
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