
“… e no judaísmo [eu] ultrapassava a muitos dos compatriotas da minha idade, tão zeloso eu era das tradições dos meus pais. Mas, quando aprouve a Deus — que me escolheu desde o seio de minha mãe e me chamou pela sua graça — revelar o seu Filho em mim, para que o anuncie como Evangelho entre os gentios, não fui logo consultar criatura humana alguma, nem subi a Jerusalém para ir ter com os que se tornaram Apóstolos antes de mim. Parti, sim, para a Arábia e voltei outra vez a Damasco. A seguir, passados três anos, subi a Jerusalém, para conhecer a Cefas, e fiquei com ele durante quinze dias. Mas não vi nenhum outro Apóstolo, a não ser Tiago, o irmão do Senhor.” (Gálatas 1,14-19)
E aqui está outro momento do Novo Testamento, bastante não tradicional para o Cristianismo Ortodoxo, eu diria: São Paulo enfatiza a descontinuidade de sua vocação com as “tradições dos seus pais”. Deus separou São Paulo deles e de muitos em sua própria “nação”, como o havia “escolhido desde o seio de sua mãe”, chamando-o não por meio de nenhuma das pessoas que Saulo havia conhecido ou com quem havia estudado, nem mesmo por meio daqueles que foram Apóstolos antes dele. Aparentemente, ninguém, nenhuma “criatura humana”, estava apto naquele momento para ajudar Paulo a ser formado de novo, a desaprender o que ele havia conhecido até então, para que pudesse “O anunciar entre os gentios”. Ele estava muito firmemente enraizado nas “tradições” que haviam se desviado da graça e do propósito de Deus na época, embora fossem baseadas (em interpretações humanas) nas Escrituras, de modo que somente a graça de Deus e o novo propósito para Paulo poderiam libertá-lo dessa bagagem.
As “tradições dos nossos pais” podem se desviar da graça e do propósito de Deus? Sim. Porque nossos “pais” podem se desviar de Nosso Pai, como seres humanos falíveis podem. Os seres humanos falíveis podem se desviar das questões e dos propósitos de Deus por outras questões e propósitos, como os de nossa “nação” ou outros ídolos contemporâneos. Esse é o caso da minha própria e amada Igreja Ortodoxa Russa hoje, quando alguns de seus “pais” distorcem as Escrituras para justificar ideologias nacionalistas que promovem a guerra e atos de terror em seu nome. Estejamos atentos e nos reconectemos com o Pai Celestial, para que possamos nos libertar dessa bagagem e avançar com a graça de Deus e o propósito sempre novo para nós neste mundo e além dele.
Versão brasileira: João Antunes
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