
Nos últimos nove anos, venho escrevendo reflexões diárias sobre as Escrituras, às vezes apenas para mim mesma e às vezes compartilhando-as. Hoje senti que era hora de refletir sobre o porquê de eu fazer isso e o porquê de eu compartilhá-las na maioria das vezes. É hora, porque ultimamente tenho tido pensamentos desanimadores sobre isso, quando nas mídias sociais qualquer postagem sobre as Escrituras gera o mínimo de interesse, em comparação com postagens sobre política, política eclesial ou coisa(s) mais trivial(is).
Para mim, nesta Era da Informação, preciso de uma fonte de informação ou “fonte de notícias” confiável e enriquecedora, que me mantenha sã em meio ao turbilhão de mensagens que são despejadas sobre nós no ciclo de notícias 24 horas por dia, 7 dias por semana. Um pouco de leitura orante das Escrituras no início do meu dia, com alguma reflexão e escrita sobre como isso se aplica na prática à minha vida (a parte da escrita é importante para mim, porque tenho a tendência de me recordar melhor das coisas que escrevo), me alicerça em meu referencial básico. Ainda fico emocionalmente abalada com as “outras” notícias, sobre as quais não acho que seria sensato enfiar a cabeça num buraco. Mas a palavra de Deus suaviza esse impacto, porque o ambiente ao meu redor fica diferente, quando Sua voz é a primeira que ouço todas as manhãs. Tenho menos medo, porque a fé lança fora o temor. E a palavra de Deus ordena o caos, que é a coisa mais assustadora sobre informações aleatórias ou desordenadas.
Comecei a compartilhar essas reflexões porque, como liturgiologista (ou alguém que estuda a história e o significado dos ofícios litúrgicos e as tradições da Igreja), depois de alguns anos lecionando Estudos Litúrgicos, percebi que era inútil tentar explicar as tradições litúrgicas cristãs Ortodoxas àqueles que não têm um sólido domínio das Escrituras. E por “sólido domínio”, eu me refiro à dedicação às Escrituras como parte da vida cotidiana. A linguagem simbólica e todo o sentido dos ritos litúrgicos estão tão intimamente ligados às Escrituras que todo o propósito da liturgia e da Tradição como um todo permanecerá obscuro para quem não estiver ativamente dedicado à palavra de Deus. Ao mesmo tempo, percebi que eu mesma não posso incentivar ninguém a se dedicar às Escrituras se não tentar mostrar o porquê e como elas se aplicam às nossas vidas no aqui e agora; e mostrar que é uma iniciativa enriquecedora internalizar a palavra de Deus e “guardá-la”, como um antídoto precioso para todo o nosso caos diário, tanto em nossa Igreja quanto fora dela. O homem não vive só de pão, nem de “valores tradicionais” ou cânones ou autocefalias ou outras coisas do gênero, que têm seu lugar algures, mas esse lugar não deve ser o centro.
Portanto, é por isso que faço isso e continuarei fazendo, para mim e para todos aqueles que estiverem interessados. Senhor, tem piedade! E graças Te dou, Senhor, por Teus lembretes diários.
Versão brasileira: João Antunes
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