
(Desculpe-me se a postagem de hoje é longa. Estou compartilhando uma parte do livro que estou escrevendo, intitulado: Rediscovering “Orthodoxy” [Redescobrindo a “Ortodoxia”, em tradução livre], porque nesse trecho escrevo sobre o Evangelho de hoje — a leitura sobre a mulher curvada curada por Cristo na sinagoga).
Redescobrindo o termo “Ortodoxo”
Duas coisas precisam ser ditas para que possamos entender melhor o termo “ortodoxo”: 1. ele significa “opinião correta”, “glorificação ou adoração correta” e “expectativa correta”; 2. como um nome pelo qual um grupo de cristãos é chamado, ele se refere a uma virtude atribuída em vez de uma virtude dada. Ou seja, o nome “Ortodoxo”, como o nome de um santo que recebemos no batismo, nos exorta a lutar pelas virtudes manifestadas por (o santo com) esse nome, mas não nos confere automaticamente essas virtudes. Vamos refletir mais sobre esses dois aspectos de “ortodoxo”, a seguir.
Reti-dão
A primeira parte da palavra “ortodoxo”, ou seja, orthos, está relacionada à palavra usada como um convite litúrgico bizantino, “Orthoí!” (pronuncia-se or-thi), que significa “Fiquemos de pé!” ou “Fiquemos eretos!”, como fazemos quando estamos em posição de sentido. É uma posição que expressa atenção e prontidão para servir, como quando os garçons de um restaurante chique ficam em posição de atenção com guardanapos dobrados sobre os braços ou quando os soldados ficam em posição de atenção na presença de um superior.
No entanto, diferentemente dos exemplos acima mencionados de garçons e soldados, os cristãos Orto-doxos são chamados a estar atentos e prontos para servir, não em primeiro lugar e principalmente a qualquer superior humano, mas à sua autoridade suprema, Deus. Assim, a retidão dos cristãos Ortodoxos representa sua liberdade da servidão a autoridades desprovidas de Deus e a falsos deuses. É a liberdade do Espírito, que liberta os fiéis da “escravidão do eu”; da escravidão do pensamento e do comportamento egocêntricos, do pecado e da falsidade, juntamente com seus efeitos paralisantes de medo, ressentimento, desânimo, indecisão e cegueira espiritual.
Os cristãos ortodoxos não são libertados dos efeitos paralisantes do pecado apenas uma vez, no Santo Batismo. Deus nos cura, tornando-nos íntegros ou “endireitados” repetidas vezes, de pequenas e grandes maneiras, tanto individualmente quanto como igreja-comunidade, sempre que nos voltamos (novamente) para Ele em arrependimento. De vez em quando, nossa “Ortodoxia” precisa ser endireitada, porque não avançamos no tempo de forma perfeita, mas ficamos bastante curvados pelos chutes no estômago de nossas circunstâncias históricas.
Observe, nesse contexto, o exemplo de Lucas 13,10-14a, de uma mulher que foi “endireitada” por Cristo, depois de ter ficado “curvada” por dezoito anos:
“Um dia de sábado, ensinava Jesus numa sinagoga. Estava lá certa mulher doente por causa de um espírito, há dezoito anos: andava curvada e não podia endireitar-se completamente. Ao vê-la, Jesus chamou-a e disse-lhe: ‘Mulher, estás livre da tua enfermidade’. E impôs-lhe as mãos. No mesmo instante, ela endireitou-se e começou a dar glória a Deus. Mas o chefe da sinagoga, indignado por ver que Jesus fazia uma cura ao sábado…”.
É muito significativo o fato de Cristo curar essa mulher, devolvendo-lhe a vida reta, especificamente no décimo oitavo ano de sua tribulação. O número 18 significa “vida”, porque esse número é escrito em hebraico com as letras hebraicas Chet e Yod, as mesmas letras que formam a palavra hebraica “chai”, que significa vida. Essa palavra hebraica para vida é frequentemente expressa no plural, Chayim (חַיִּים), como no conhecido brinde “L’chayim!”, que significa “À vida!”. Diz-se que as duas letras consecutivas Yod (יי) nesse substantivo plural representam duas “mãos unidas” (a palavra hebraica yad [יָד] significa “mão”), significando a união de Deus conosco. A palavra revela, portanto, que a verdadeira vida ou “vida em abundância” vem de “Deus conosco” e de nossa resposta à Sua presença. A cura da mulher curvada demonstra maravilhosamente como ela vem do toque de Suas mãos, depois que “Ele chamou-a” e ela atendeu ao chamado, provavelmente indo mancando até Ele com grande dificuldade devido à sua condição.
Outro aspecto importante da cura da mulher curvada é a reação muito contrária do chefe da sinagoga à presença de Cristo, “porque Jesus fazia uma cura ao sábado”. De acordo com esse chefe da sinagoga, aquele não era o tempo apropriado para curar (“disse [o chefe da sinagoga] à multidão: Seis dias há, durante os quais se deve trabalhar. Vinde, pois, nesses dias, para serdes curados e não em dia de sábado”, cf. Lucas 13,14b). Vemos aqui que ele também está paralisado, não fisicamente como a mulher, mas em sua incapacidade de ver o que “os sinais dos tempos” em que vivia estavam anunciando. Ele estava lendo esses sinais de maneira arcaica e distorcida, segundo a qual um sábado, um Sabbath, não era tempo para a obra de Deus. Com a cabeça presa no passado, ele não conseguia ver o novo e principal “sinal” de sua época, que era o Senhor do Sábado encarnado, bem ali naquela sinagoga, endireitando o que havia se tornado torto com o tempo.
Se me permite uma exegese mais alegórica, acredito que essa pode ser uma maneira bastante útil de relacionar a história da cura da mulher curvada com as aflições da Igreja Ortodoxa em nossos dias. Poderíamos ver a cura da mulher como uma cura da Igreja, mesmo quando um de seus “porteiros” está tão obcecado em manter suas regras canônicas (do passado) que se tornou indiferente às necessidades reais dos seres humanos dentro dos portões. Hoje, temos Igrejas inteiras que precisam ser “endireitadas”, mais obviamente (mas não apenas) na Rússia e na Ucrânia, juntamente com certos grupos específicos que precisam de um progresso em nossa Igreja, mais obviamente as mulheres. Mas nós, que somos os “porteiros”, estamos com a cabeça presa no passado, especialmente nas regras canônicas do passado. Isso obscurece nossa visão não apenas dos seres humanos que precisam de cura, que precisam ser capazes de se levantar e professar a fé e servir na Igreja como Deus os está chamando a fazer, mas também obscurece nossa visão do Senhor do Sábado no meio de nós. Quem lê, que entenda.
Versão brasileira: João Antunes
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