QUINTA-FEIRA, O QUINTO DIA

Deus disse: ‘Que as águas sejam povoadas de inúmeros seres vivos, e que por cima da terra voem aves, sob o firmamento dos céus’. Deus criou, segundo as suas espécies, os monstros marinhos e todos os seres vivos que se movem nas águas, e todas as aves aladas, segundo as suas espécies. E Deus viu que isto era bom. Deus abençoou-os, dizendo: ‘Crescei e multiplicai-vos e enchei as águas do mar e multipliquem-se as aves sobre a terra’. Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o quinto dia.” (Gênesis 1,20-23)

A quinta-feira, chamada de O Quinto Dia em hebraico e grego (Yom Hamishi, Pempti), pode ser vista como um dia crucial na obra de criação de Deus. Aqui Deus cria criaturas vivas (hayyah em hebraico). E, pela primeira vez, Deus fala diretamente à Sua criação, às criaturas marinhas e aos pássaros recém-criados, ordenando-lhes que “crescei e multiplicai-vos”. Assim, é posto em movimento o impulso entre os seres vivos para interagir de forma produtiva, de modo a multiplicar o que Deus já havia criado.

Às quintas-feiras, em nossa tradição eclesiástica, celebramos figuras fundamentais na História da Salvação, os Santos Apóstolos. Eles são “fundamentais” no sentido de que deveriam multiplicar a nova vida inaugurada pelo Filho de Deus, que emergiu do Túmulo. Deus os enviou ao mundo para serem frutíferos e multiplicarem não a vida biológica, mas a “vida em abundância” que brota de seu testemunho do Verbo de Deus encarnado. Esse testemunho não favoreceu, em última análise, a vida biológica dos apóstolos, a maioria dos quais (exceto João) morreu como mártir. Na era da Igreja “apostólica”, a procriação deixou de ser a principal vocação dos seres humanos ou a principal maneira de “crescer e multiplicar-se”.

Portanto, no quinto dia de nossa semana, às quintas-feiras, celebramos a dimensão espiritual de nossa capacidade de “crescer-nos e multiplicar-nos”, na comunhão do Espírito que é a Igreja apostólica. Note que o número cinco em hebraico, escrito com a quinta letra do alfabeto hebraico, Hay (ה), transmite em sua pronúncia e em sua forma a dimensão espiritual deste mundo. A letra é pronunciada usando apenas a respiração, é apenas aspirada, sem usar os lábios ou a boca, por isso conota o Espírito. A forma dessa letra (veja acima) revela as cinco dimensões deste mundo, pois é composta pelo minúsculo yod י — que conota espiritualidade, pois é a única letra hebraica que não toca a linha sobre a qual se escreve — dentro de um Dalet ד, um símbolo das quatro direções. É por isso que a letra Hay e o número que ela representa, cinco, são considerados na numerologia hebraica como uma imagem deste mundo girando em torno daquilo que é central em nossas vidas, o reino espiritual e o Espírito de Deus, que paira “acima da linha” (sobre a qual se escreve) ou acima do chão sobre o qual caminhamos.

À medida que prosseguimos com este Jejum da Natividade, que eu me permita “crescer e multiplicar”, em meu coração e em meu comportamento, a graça que está sendo derramada abundantemente sobre todos nós, não apenas desde o Túmulo, mas já da pequena gruta em Belém. Graças Te dou, Senhor, por mais uma quinta-feira, mais um quinto dia inspirador de fé, em que posso colocar meu coração e meu foco em Teu Espírito sustentador da vida no meio de nós. Pelas orações de Seus santos apóstolos, ó Salvador, salva-nos!

Versão brasileira: João Antunes

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