PASSAVA A NOITE NO MONTE

Durante o dia, Jesus estava no templo a ensinar; mas saía para passar a noite (ηὐλίζετο, acampar) no Monte das Oliveiras (Ἐλαιῶν).” (Lucas 21,37)

Esse primeiro versículo, citado acima, da leitura do Evangelho de hoje pode não parecer muito interessante ou de importância para muitos leitores, mas me chamou a atenção nesta manhã por motivos pessoais. Morei por dois anos no “Monte das Oliveiras” — não exatamente no lugar em que nosso Senhor estava acampado sob as estrelas (como os comentaristas supõem pela forma como isso é expresso em grego), que provavelmente ficava no jardim do Getsêmani, aos pés do Monte das Oliveiras. Eu morava no alto desse monte e não dormia sob as estrelas, mas em uma cama, dentro de uma cela monástica simples, mas confortável. Nem sempre era seguro, porque os moradores da região invadiram nosso convento em duas ocasiões: nossa abadessa foi atacada uma vez por um homem armado, que entrou em sua cela à noite e atirou nela (mas não acertou, porque ela o enfrentou com uma tesoura e ele fugiu), e uma freira idosa foi atacada no mesmo prédio em que eu estava vivendo, por outro homem que a atacou com uma faca, exigindo dinheiro. Ela foi ferida, mas sobreviveu.

Enfim, embora eu nunca tenha pensado nesse fato específico naquela época, hoje me ocorre que cerca de dois milênios antes de eu estar lá, o Filho de Deus estava realmente, em carne e osso, pernoitando por cerca de cinco noites não muito longe de onde eu estava. Ao contrário de mim e das demais monjas no Convento da Ascensão, Ele não tinha quarto ou cama, assim como em Belém, quando nasceu de uma virgem, nem Ele nem Sua mãe tinham quarto ou cama.

Assim, nosso Senhor compartilhou nosso espaço — um espaço tão contestado hoje em dia — de uma maneira extremamente modesta e humilde. O Filho de Deus encarnado nunca buscou comprar ou conquistar um terreno para Si ou para Seus discípulos; tampouco construiu para Si uma casa ou mesmo uma sinagoga ou igreja (embora presumamos que Ele tenha aprendido carpintaria com José, para que pudesse construir coisas).

Embora a conquista de terras fosse uma questão importante para o povo da “Antiga” Aliança, na Era da Igreja, não somos ensinados ou orientados por Nosso Senhor que a conquista de terras para nós mesmos seja uma prioridade cristã. “Quando vos perseguirem numa cidade, fugi para outra”, Ele nos diz (Mateus 10,23). No entanto, infelizmente, lutamos, e ainda continuamos lutando, uns contra os outros por territórios, — tanto no sentido administrativo eclesiástico, quando os hierarcas afirmam seus territórios “canônicos”, quanto no sentido militar, quando lutamos ou apoiamos invasões militares de Estados soberanos, como as invasões da Geórgia e da Ucrânia e, mais recentemente, de Israel em 7 de outubro. “Terra!” “Do rio ao mar!” — alguns de nós se exaltam, como se valesse a pena matar por isso; como se isso justificasse estuprar, mutilar e fazer reféns centenas de pessoas inocentes e, em seguida, usar milhares de outras pessoas inocentes como escudos humanos, para escapar da justiça por desencadear tal caos.

Que tipo de terra Nosso Senhor realmente nos promete, e como podemos alcançá-la? “Felizes os mansos”, diz Ele, “porque possuirão a terra” (Mateus 5,5). Embora eu não possa mudar o fato trágico de que os seres humanos continuam dispostos a matar, estuprar, etc., por terra, eu posso alcançar a paz dentro de mim, por meio da comunhão com Nosso Senhor manso e humilde de coração. Ele me dá tudo hoje, tudo de que preciso, como meu cantinho, o teto sobre minha cabeça. E hoje encontro paz na gratidão, em vez de querer infinitamente mais e mais. Eu me defenderia se fosse atacada com uma faca ou uma arma, como aconteceu com minha abadessa? Eu o faria, se pudesse. Senhor, abençoa-nos com Tua mansidão hoje e conceda-nos paz e vitória sobre o caos, se ou quando precisarmos nos defender. Que Tua luz brilhe sobre nossas trevas agora e sempre!

Versão brasileira: João Antunes

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