
“Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos vindos do Oriente. E perguntaram: ‘Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo’. Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes perturbou-se e toda a Jerusalém com ele.” (Mateus 2,1ss)
Herodes e todos aqueles que estavam “com ele” ficaram tão perturbados com a notícia do nascimento de Cristo que, por fim, esse sentimento deles, esse sentimento “perturbado”, levou ao massacre dos meninos em Belém. Por que eles ficaram perturbados? Porque temiam que o status quo, todo o sistema no qual Herodes era uma espécie de rei, fosse abalado pelo recém-nascido “Rei dos Judeus”. Eles estão dispostos a massacrar os recém-nascidos de seu próprio povo a fim de preservar seu próprio “sistema”.
Do outro lado dessa batalha, Deus parece recuar, mas não está inerte. Ele protege a vida dos Magos, bem como a vida do Rei dos Judeus e de Sua família. Por que eles são protegidos, enquanto Deus permite o sofrimento inconcebível que seria infligido às famílias de Belém? A resposta é a que Cristo dá a Seus discípulos, quando eles perguntam sobre o motivo do sofrimento do cego de nascença: “para nele se manifestarem as obras de Deus” (João 9,2).
As obras de Deus estão se manifestando, às vezes mais rápida e às vezes mais lentamente, em um mundo que Deus colocou em marcha, incluindo a ação do nosso livre-arbítrio humano, que é algo perigoso. Nós somos encarregados de atuar livremente, de nos reproduzir e nos governar, de organizar nossas próprias vidas físicas e espirituais, bem como as de nossas instituições de modo geral. E fazemos disso uma grande desordem, repetidas vezes, na medida em que optamos por não seguir o fluxo da vontade de Deus, que é essencialmente ter vida e vida em abundância. Nós erigimos ídolos e ideologias em substituição a Deus; ídolos que exigem sacrifícios que não deveríamos fazer, porque, no fundo, eles buscam nossa destruição e não estão interessados em nossa vida. É por isso que vemos Herodes sacrificando irracionalmente os meninos de Belém; e vemos seu filho, Herodes Antipas, sacrificando João Batista. Os Herodes prezavam mais seus próprios ídolos do que as vidas humanas pelas quais eram responsáveis, como líderes políticos.
Hoje, no tipo de “choque de civilizações” que estamos presenciando, ele é novamente deflagrado pelos Herodes deste mundo e seu(s) sistema(s) corrupto(s), que valorizam o próprio “sistema” acima das vidas de seu próprio povo e estão dispostos a sacrificá-las como bucha de canhão ou como escudos humanos para perpetuá-lo. Do outro lado desse conflito, temos o(s) sistema(s) que valoriza(m) a vida de seu próprio povo acima de tudo, como seu principal recurso. Estranhamente, muitos de nós culpamos esse último grupo por “provocar” os Herodes, embora não culpemos o Rei dos Judeus ou João Batista por isso. Senhor, Sol da Justiça, faze brilhar a luz do Teu conhecimento sobre nossas trevas e conceda-nos o Teu tipo de vitória sobre aqueles que procuram perpetuar essas trevas. Amén!
Versão brasileira: João Antunes
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