UM HINO PRÉ-NATIVIDADE (parte 1)

Em seu ventre, Ó imaculada Theotokos,
contemplamos uma rica eira (θημωνία ἅλωνος, стог гуменный).
Você carrega a Espiga de Grão que cresceu sem ser semeada;
Seu filho é a Palavra eterna:
De maneira maravilhosa, você dará à luz a Ele na gruta em Belém,
Ele alimentará com amor todas as criaturas com o conhecimento de Deus,
libertando a raça humana da fome mortal.
(Hino das Vésperas, 21 de dezembro, 2º dia da Pré-festa da Natividade)

Reflitamos, meus amigos, sobre um dos hinos da “Pré-festa” da Natividade, embora ela só comece daqui a seis dias (Calendário Juliano Revisado), em 20 de dezembro. Há grande e profundo simbolismo bíblico nesses hinos, como o ventre da Theotokos sendo comparado a uma “eira” no hino citado acima. Isso pode não fazer sentido para nós, especialmente se cantarmos esses textos em grego ou eslavo, se não pesquisarmos com antecedência.

O que é uma “eira” (ἅλως, гумнó)? É um piso liso e duro, onde o trigo recém-colhido era espalhado e batido manualmente (antes de haver maquinário), a fim de separar e “revelar” os grãos de trigo da palha e das cascas inúteis. Para ajudar nesse processo, o gado e os touros também eram conduzidos sobre o trigo, pisando-o repetidamente para soltar, da palha não comestível que o envolve, a parte comestível do grão. No simbolismo bíblico, a eira significa (um lugar de) separação e revelação; julgamento.

Quando “contemplamos” o ventre da Mãe de Deus como uma “eira”, devemos observar que essa é uma imagem bastante brutal. Ela aponta para os aspectos difíceis de sua vocação; de se tornar, por meio de uma trajetória difícil, o “lugar” da revelação de Deus a nós. O Filho de Deus é “separado” de seu ventre, após uma difícil jornada até Belém, montando jumento — não muito diferente da entrada de nosso Senhor em Jerusalém, montando um jumento, pouco antes de Sua cruz e ressurreição. Mas, no caso dela, não havia multidões saudando-a ou aclamando-a ao longo do caminho. Não havia ninguém, nem lugar na hospedaria… No entanto, — alerta de spoiler — essa difícil jornada culminou em grande alegria, portanto, não pensemos nela de forma alguma em termos mórbidos.

Neste Jejum da Natividade, ou Advento, pensemos em nossa própria jornada para “Beth-le-hem” (que significa “Casa do Pão”) como uma autodoação. Não uma autodoação mórbida, mas uma que fazemos na paz e na humildade do Único Cheio de Graça e na luz e leveza da Cruz. Pelas orações da Theotokos, Ó Salvador, que todos nós nos tornemos vasos portadores de Sua luz nesta época, para que possamos recebê-l’O e depois compartilhá-l’O com as demais pessoas entre nós.

Versão brasileira: João Antunes

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