
“As almas dos justos estão nas mãos de Deus e nenhum tormento os atingirá. Aos olhos dos insensatos pareceram morrer, a sua saída deste mundo foi tida como uma desgraça, a sua morte, como uma derrota. Mas eles estão em paz. Se aos olhos dos homens foram castigados, a sua esperança estava cheia de imortalidade.” (Sabedoria de Salomão 3,1-4)
Passei alguns dias chorando, de vez em quando, com a notícia de que o cristão Ortodoxo, Alexey Navalny, foi morto em uma das horríveis penitenciárias da Rússia de Putin. Senti um vazio em nosso mundo, agora que Alexey não está mais fisicamente conosco. Mas agora parei de chorar, percebendo que o sangue dos justos não produz nem vazio e nem silêncio. Ele clama aos céus e ressoa em nossos corações, pois somos desafiados a expressar sua verdade inquietante. Qual é essa verdade? Qual é a mensagem da extraordinária trajetória de Alexey?
Aos olhos dos “insensatos”, o retorno de Alexey Navalny à Rússia, que foi uma rendição nas mãos de seus inimigos, foi uma loucura. E sua morte — sem sentido. Aqueles que o mataram também estão tentando espalhar essa narrativa, de que “Navalny morreu em vão” (essa é uma citação de um e-mail que recebi de um padre pró-Putin da Igreja Ortodoxa Russa fora da Rússia, que me encaminha propaganda putinista diariamente). Eles estão tentando nos convencer de que ninguém realmente se importa que ele tenha morrido, mesmo quando o mundo inteiro está agitado com isso. Os assassinos de Alexey também estão tentando esconder seu corpo, porque ele testemunha seu heroico padecimento nas mãos deles, que mataram seu corpo porque não conseguiram subjugar sua alma.
A tentativa de distorcer o legado de uma testemunha da Verdade não é novidade na história da Igreja. Ela remonta aos fariseus que foram a Pilatos após a morte de Cristo na cruz e O acusaram de ser um “impostor”, cujos discípulos planejavam roubar Seu corpo. “E eles foram pôr o sepulcro em segurança, selando a pedra e confiando-o à vigilância dos guardas” (Mateus 27,66). Na vida de muitos mártires, lemos sobre seus algozes descartando seus restos mortais em depósitos de lixo ou queimando-os, num esforço para apagar toda a sua memória. Mas os fiéis procuravam seus restos mortais e os recolhiam, como joias preciosas, muitas vezes arriscando a própria vida para fazer isso.
De uma perspectiva cristã, que reconhece o mistério da “vocação” de cada pessoa ou o chamado de Deus (e não dos homens), podemos ver Alexey como alguém que seguiu sua vocação, para ser um porta-voz da verdade para seu povo. Como tal, ele foi chamado constantemente a estar junto de seu povo, onde eles pudessem ouvi-lo, dentro do tempo e do lugar que ele compartilhava com eles, ou seja, a Rússia de Putin. Como ele mesmo escreveu em uma postagem no Instagram há vários meses (transmitida por seus advogados), ele voltou para a Rússia porque não podia fazer outra coisa. Era o seu lugar, ou o lugar onde ele tinha que estar. Podemos ver essa entrega ao lugar para o qual fomos chamados, mesmo quando esse lugar significa perigo, na vida de muitos heróis cristãos que seguiram a Cristo. O próprio Senhor retornou a Jerusalém, quando isso significava perigo, para horror de Seus discípulos. Lembremo-nos de como Pedro tentou convencê-l’O a não voltar a Jerusalém, e o Senhor respondeu: “Afasta-te, Satanás! Tu és para mim um estorvo (σκάνδαλον), porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens!” (Mateus 16,23).
Não choremos por Alexey, mas o celebremos como alguém que estava atento às coisas de Deus, como a verdade, a coragem e o poder de uma vocação dada por Deus. Ele nos relembrou dessas coisas, em um “mundo pós-verdade”. Ele agora descansa com os santos, enquanto seus assassinos não têm descanso, lutando para lavar o sangue de suas mãos. “Bendito é o caminho pelo qual hoje andarás, ó alma, pois um lugar de descanso te está preparado”. Descanse, querido amigo, e obrigada.
Versão brasileira: João Antunes
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