Hoje, enquanto os fiéis que seguem o Calendário Juliano Tradicional celebram a Dormição da Theotokos, estou refletindo sobre o tipo de “obediência” que ela demonstrou ao longo de sua vida. Se a palavra “obediência”, que vem do prefixo latino ob- (para, em direção a) e do verbo audire (ouvir), significa literalmente “ouvir/atentar para” algo ou alguém, prestando atenção a esse algo ou alguém, a quem ou a quê ela ouviu atentamente, e de que maneira?
A primeira parte da pergunta é óbvia, pois todos sabem que ela obedeceu a Deus, que a chamou por meio do Arcanjo para uma vocação difícil, tornando-se Mãe de Nosso Senhor, e ela respondeu ao chamado divino. Mais tarde, seu Filho novamente a chamou à maternidade durante Sua crucificação, quando confiou a Ela Seu discípulo amado (e a todos nós, segundo a tradição), dizendo: “Mulher, eis aí o teu filho!”.
Mas a segunda parte da questão, o como ela obedeceu, merece uma reflexão mais profunda.
Observemos que sua obediência à vontade de Deus significou desobediência a outras vontades e planos para ela, incluindo os seus próprios. Segundo a tradição, ela havia feito um voto de virgindade ainda jovem, no Templo, o que significa que a maternidade não estava em seus planos. Os sacerdotes do Templo sabiam disso, razão pela qual escolheram o Justo José, um viúvo que já havia criado seus filhos, para acolhê-la.
Portanto, sua obediência ao chamado de Deus para dar à luz Seu Filho contrariou as expectativas tanto dos sacerdotes quanto de José. Além disso, sua vocação perturbou os planos de uma autoridade política, o Rei Herodes, que mandou matar muitos recém-nascidos em Belém, numa tentativa de impedir a realização daquele plano divino.
Será que ela planejou tal desfecho, indo contra as expectativas ou planos das autoridades políticas ou religiosas, por obedecer ao chamado de Deus? Não, não há evidência de que ela se preocupasse com os problemas que sua vocação poderia causar. Ela perguntou ao Arcanjo como poderia ocorrer aquele nascimento, já que não conhecia homem algum, mas não questionou sobre os complicados desdobramentos possíveis. Em outras palavras, sua preocupação era com a origem do plano, não com seu resultado.
E quando o Arcanjo lhe disse que o Espírito Santo seria a origem do plano, ela concordou, entregando os resultados de sua obediência a Ele. Doravante, suas ações foram silenciosamente impulsionadas pela vontade de Deus, que ela se tornou incapaz de não realizar, pois sua atenção, sua escuta atenta ou ‘obediência’, estavam completamente focadas n’Ele.
É assim que Simone Weil (outra virgem) descreve tal obediência em seu ensaio Necessidade e Obediência: “Não é uma ação, mas uma espécie de passividade. Ação inativa”.
Creio que seja esse tipo de “passividade” que nos é ensinada na Oração do Senhor, quando rezamos: “Venha a nós o Teu reino, seja feita a Tua vontade…”. Somos ensinados a dizer: “Assim seja”, assim como disse a Santíssima Virgem, contra todas as probabilidades e apesar de qualquer transtorno que o reino ou a vontade de Deus possa causar neste mundo, quando interrompe os planos ou vontades meramente humanas ao nosso redor.
Obrigado, Mãe da Vida, por não nos abandonar em tua Dormição.
E Feliz Festa, amigos que seguem o Calendário Juliano Tradicional!
Versão brasileira: João Antunes
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