
“Glória a Deus por tudo (especialmente pelas dores).” — São João Crisóstomo
As últimas palavras de São João Crisóstomo aparecem em alguns relatos com essa parte final, que coloquei entre parênteses acima: especialmente as dores. Neste Dia de Ação de Graças, gostaria também de agradecer a Deus pelos aspectos difíceis da vida, pelas dores. Todas elas vêm — permita-me aqui uma reflexão filosófica — da liberdade que Deus nos concedeu. Por isso, este ano, agradeço a Deus por esse desafio simultaneamente árduo e digno: a liberdade.
Fomos criados com dois tipos de liberdade, ambos limitados: uma é dada; a outra é potencial, exigindo esforço da nossa parte para ser desenvolvida.
A liberdade dada (chamada avtexousion, ou “autodeterminação”, em grego) significa que temos a capacidade de escolher entre o bem e o mal, ou entre viver em harmonia com Deus ou viver apenas segundo nosso próprio modo. Deus nos oferece essa escolha desde o princípio — é por isso que há uma árvore proibida no paraíso, e por isso a serpente é permitida a entrar no jardim.
A outra liberdade, a liberdade potencial (elevtheria, em grego), é aquela que precisamos desenvolver, seguindo os mandamentos de “ser fecundos e multiplicar-vos” e de exercer domínio sobre a terra e sobre as outras criaturas (Gênesis 1,28). Ser “fecundo” e “multiplicar-se” não significava, primordialmente, ter filhos, porque o mandamento é dado no jardim, onde a fecundidade humana e o crescimento eram cultivados e testados de outras formas. Portanto, todos somos chamados a frutificar e a multiplicar, independentemente de gerarmos filhos. Os Santos Apóstolos, celebrados todas as quintas-feiras (e o Dia de Ação de Graças ocorre sempre numa quinta), foram fecundos e multiplicaram-se ao espalhar a Boa Nova, “gerando” outros para a nova vida em Cristo. As nossas próprias vocações — apostólicas por natureza, cada uma à sua maneira — também nos desafiam a ser doadores de vida (e não de morte) aos outros, nos pequenos ou grandes gestos que podemos oferecer.
Gosto do fato de o Dia de Ação de Graças ser numa quinta-feira, o Quinto Dia da semana (Pempti, em grego; Hamishay, em hebraico), não apenas por ser o dia em que celebramos os Apóstolos. É também no Quinto Dia da criação que Deus cria as aves e os peixes, que nos revelam algo importante sobre a liberdade. Eles também recebem o mandamento de “ser fecundos e multiplicar-vos” (Gênesis 1,22), e são as criaturas que se movem com maior rapidez e liberdade. Assim, também possuem um tipo de liberdade, bem menos complexa que a nossa, mas que, ainda assim, pode inspirar em nós certo temor… (basta lembrar de Os Pássaros, de Hitchcock, ou de Tubarão).
O que aprendemos aqui é que a liberdade dos outros em nosso mundo — inclusive de outros seres humanos que podem estar se movendo ao ritmo de uma música diferente da nossa — desafia-nos tanto com o medo quanto com a vocação de exercer o tipo de “domínio” sobre essa realidade que somos chamados a aprender, à medida que trabalhamos para desenvolver nossa elevtheria (nossa liberdade) em sintonia com Deus.
Isso significa aumentar e multiplicar nossa fé, que é o antídoto contra o medo. Significa ampliar nosso conhecimento da Verdade, que nos liberta. Embora o conhecimento aumente nossas dores, e a liberdade multiplique nossas responsabilidades, hoje sou grata a Deus por nos desafiar dessa forma — a Via Crucis — caminho pelo qual crescemos e avançamos rumo à Vida Nova em Cristo.
Graças a Ti, Senhor, por tudo, especialmente pelas dores.
Feliz Dia de Ação de Graças, queridos amigos e até mesmo adversários!
