
Uma das 13 leituras do Antigo Testamento feitas nas Vésperas da véspera da Teofania, que na tradição bizantina é a festa do Batismo do Senhor, é Juízes 6,36–40. Trata-se de um episódio da história de Gideão, que esteve inicialmente relutante, mas acabou se tornando um juiz israelita poderoso, líder militar e profeta. Ele conduziu Israel à vitória contra a opressão dos midianitas, derrotando um exército imenso com apenas 300 homens.
Quando Deus o chamava para essa missão, Gideão inicialmente duvidou de que fosse capaz de realizá-la. Por isso, ele colocou Deus à prova, pedindo um sinal, ao colocar um “velo” (que em eslavônico é руно, para quem reza nessa língua e talvez nunca soube o que significava) sobre uma “eira” (гумно em eslavônico).
Gideão “estende um velo” (put out a fleece), expressão idiomática em inglês que significa pedir a Deus um sinal para confirmar Sua orientação em determinada decisão. Esse velo é a lã tosquiada de uma ovelha, colocada sobre uma eira, ou seja, um espaço aberto e plano, geralmente elevado, onde os grãos colhidos eram espalhados e debulhados, batidos para que, por exemplo, o trigo fosse separado da palha. A palha, mais leve, era levada pelo vento, enquanto o trigo permanecia no chão.
Vale notar que, na Bíblia, a eira é frequentemente símbolo de um processo de separação e discernimento, semelhante ao nosso caminho de salvação. Assim, nessa leitura, Gideão coloca o velo de lã sobre a eira durante a noite e pede a Deus um sinal que confirme que ele, Gideão, realmente libertará seu povo. Ele pede que o orvalho caia apenas sobre o velo, enquanto a eira permaneça seca. Pela manhã, Gideão encontra o velo molhado de orvalho, exatamente como havia pedido, e a eira seca.
Mas isso ainda não lhe basta. Na noite seguinte, ele pede o contrário, que o velo permaneça seco e que a eira esteja molhada de orvalho. E Deus concede também esse sinal, como Gideão constata ao amanhecer. Então, ele segue adiante para cumprir sua vocação.
O que esse episódio tem a ver com a festa da Teofania? O sinal de Gideão envolve três elementos simbólicos. O primeiro é o velo de uma ovelha, que simboliza tanto o Filho de Deus, o Cordeiro de Deus, quanto cada um de nós, as ovelhas do Bom Pastor, além da obediência d’Ele e da nossa quando somos “tosquiados”, como um cordeiro que não resiste.
O segundo elemento é a água, que é sempre símbolo da graça, da Água Viva derramada sobre nós, sobre toda a Igreja, pelo Espírito Santo. E o terceiro é a eira, que simboliza várias realidades. Antes de tudo, ela representa o lugar de todo o nosso processo de discernimento, que é o nosso caminho de salvação. E esse lugar é a própria terra, o mundo material inteiro em que vivemos, caminhamos e seguimos adiante, enquanto Deus nos santifica e santifica também este mundo, fazendo descer sobre nós e sobre a criação o “orvalho” que é a graça do Espírito Santo.
Observe-se, nesse contexto, que frequentemente nos hinos litúrgicos, a Mãe de Deus, que é o símbolo por excelência da Igreja, a Mãe-Igreja, é comparada à eira sobre a qual o orvalho desce, pois isso simboliza o fato de ela ter sido envolvida e coberta pelo Espírito Santo.
E o que tudo isso tem a ver com a festa da Teofania ou Epifania, isto é, o Batismo do Senhor? Há água envolvida, há o Cordeiro de Deus envolvido, ou seja, Jesus Cristo nas águas do Jordão, e há também o Espírito Santo que desce sobre Ele no Jordão, sob a forma de uma pomba. Além disso, o Batismo de Cristo inaugura o início de Sua missão terrena, assim como o episódio do orvalho sobre o velo e a eira inaugura a missão de Gideão.
Nosso Senhor, é verdade, vai primeiro ao deserto para ser tentado pelo diabo logo após o Seu Batismo, mas depois retorna e começa a chamar Seus apóstolos, a pregar, a curar e a realizar Sua obra.
Feliz véspera da Teofania, ou Pré-festa da Natividade, a todos!
Versão brasileira: João Antunes
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