
“Hoje a Virgem dá à luz o Supraessencial,
e a terra oferece uma gruta ao Inacessível.
Os anjos cantam e, com os pastores, dão glória.
Os magos, guiados pela estrela, ainda caminham.
Pois Ele nasceu por nossa salvação: um Menino recém-nascido, o Deus antes dos séculos.”
(Kondakion da Natividade)
É “hoje” que a Virgem dá à luz, para aqueles que seguem o Calendário Juliano Tradicional, enquanto outros já estão voltando ao trabalho ou à escola, tendo mais ou menos concluído o grande ciclo litúrgico das Epifanias. Na verdade, é “hoje” em Belém, porque o Patriarcado de Jerusalém celebra o Natal segundo o Calendário Juliano Tradicional. Essa diferença de calendários entre nós, cristãos, costuma ser vista como um escândalo, e é uma realidade dolorosa para quem tem amigos ou familiares que celebram grandes festas como esta em datas diferentes das nossas. Mas consideremos, meus amigos, o hino citado acima, que oferece um certo consolo sobre esse tema, pois ele unifica aqueles que celebraram a Natividade do Senhor em Belém em “tempos” diferentes.
Embora o hino descreva um acontecimento ocorrido num momento específico da história, pode-se dizer que ele não foi “celebrado” exatamente ao mesmo tempo pela Virgem, pelos pastores e pelos magos. Ela, e José, eram presumivelmente os únicos presentes naquele momento, junto com os animais da gruta mencionados nos cânticos natalinos. O Protoevangelho de Tiago acrescenta ainda a presença de uma parteira e de Salomé na cena, mas a nossa tradição geralmente ignora esse detalhe. Os pastores chegam um pouco mais tarde, enquanto os magos “guiados pela estrela, ainda caminham”. Eles contemplaram e celebraram o “Menino recém-nascido”, ou seja, celebraram o Natal dias ou até semanas depois. Assim, se quisermos, podemos compará-los aos que seguem o Calendário Juliano Tradicional.
E há ainda Aquele mencionado nesse hino que transcende totalmente o tempo. Ele é chamado de “Supraessencial” e de “Deus antes dos séculos”, sublinhando que está acima do nosso tempo. Na Sua “mente”, o mistério da Encarnação jamais foi desconhecido. Pode-se dizer que Deus sempre “celebra” esse mistério que a nós foi revelado apenas num momento específico da história, sob César Augusto e “sendo Quirino governador da Síria” (Lucas 2,2). É por isso que, ao criar o ser humano, Ele reconheceu em nós a Sua própria imagem e semelhança.
Quanto aos anjos, não creio que eles “soubessem” desse mistério desde o início, quando fomos criados. Mas, no mínimo, Gabriel o conhecia desde o momento da Anunciação. Não sei se ele conseguiu guardar isso só para si ou se compartilhou com outras potências incorpóreas celestes, caso conversem entre si. De todo modo, os anjos conheceram e celebraram o nascimento de Cristo antes que os pastores o soubessem, e assim também celebraram o Natal um pouco antes.
Para concluir esta longa reflexão, se isso servir de consolo, lembremo-nos de que o “hoje” da Natividade do nosso Senhor ultrapassa os nossos calendários específicos. Sempre ultrapassou. Podemos sempre nos unir a essa celebração, como de fato fazemos ao longo de toda a nossa vida em Cristo, Aquele que está sempre “vindo” ao nosso encontro, na carne, na Sua Palavra e pelo Seu Espírito vivificador. E unamo-nos também para desejar hoje um Feliz Natal aos nossos irmãos e irmãs que seguem o Calendário Juliano Tradicional.
Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade!
Versão brasileira: João Antunes
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