
“Depois de partirem, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe: ‘Levanta-te, toma o menino e sua mãe, foge para o Egito e fica lá até que eu te avise, pois Herodes procurará o menino para o matar’. E ele levantou-se de noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito, permanecendo ali até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor anunciou pelo profeta: ‘Do Egito chamei o meu filho’.” (Mateus 2,13ss)
A profecia citada no final desta passagem, lida hoje nas Igrejas Ortodoxas, um dia após o Natal, é do profeta Oseias e, originalmente, referia-se ao Êxodo dos israelitas para fora do Egito: “Quando Israel era ainda menino, Eu amei-o, e chamei do Egito o meu filho” (Oseias 11,1). Vemos aqui, portanto, um paralelo entre a fuga do nosso Senhor para o Egito e a história dos israelitas no Antigo Testamento.
Vale lembrar que eles foram parar no Egito porque José, filho de Jacó, foi vendido pelos próprios irmãos como escravo. Mais tarde, ele ascendeu ao poder e pôde fornecer pão aos seus irmãos durante um período de fome. Muitas gerações depois, foram “chamados do Egito” sob a liderança de Moisés, após a morte do faraó que havia sido favorável ao povo de José, quando então os israelitas se tornaram escravos dos egípcios.
No Novo Testamento, encontramos um outro José indo ao Egito, em circunstâncias diferentes e sem envolver escravidão. Onde está, então, o paralelo entre as narrativas do Antigo e do Novo Testamento? Cristo está, ao mesmo tempo, partilhando e refazendo a história de Israel, como um verdadeiro israelita. Embora seja forçado a ir ao Egito em condições dramáticas, Ele não cai em escravidão ali.
Os israelitas haviam buscado alimento no Egito durante a fome, e Deus lhes concedeu pão por meio de José. No entanto, acabaram escravizados aos “doadores de pão”, isto é, às autoridades egípcias que vieram depois dele. Após o Êxodo, sob a liderança de Moisés, Deus lhes deu meios para desaprender a escravidão aos provedores humanos de pão, e ao próprio pão, oferecendo-lhes o alimento do céu, o maná, e a Lei. Com o tempo, porém, também se tornaram escravos da própria Lei, tratada como um ídolo. Isso fica claro na época da missão terrena de Cristo, quando os fariseus estavam completamente cegos para o verdadeiro sentido da Lei e não conseguiram reconhecer o próprio Legislador, Cristo, presente entre eles.
Ele, que foi “chamado do Egito”, confrontou essa interpretação da Lei quando começou a pregar e a realizar ações como curar no sábado, recordando ao povo o propósito essencial da Lei: a comunhão com Ele, uma aliança com o Legislador, que não escraviza, mas liberta da obediência cega às autoridades meramente humanas.
Por fim, Ele Se revelou como o nosso verdadeiro “Doador do Pão”, oferecendo-nos o Seu Corpo e o Seu Sangue da “nova aliança”. O sentido disso, mais uma vez, é a comunhão com Ele, não a escravidão às regras e preceitos humanos que costumamos construir em torno do acesso “canônico” a este Sacramento. O Pão da Vida não foi dado para conceder poder a líderes eclesiásticos de romper a comunhão entre Igrejas por motivos político-eclesiais, como ocorreu recentemente entre o Patriarcado de Moscou e o Patriarcado Ecumênico. Tampouco foi feito para se tornar um ídolo em si mesmo, como muitas vezes acontece sob a influência de versões populares da chamada “eclesiologia eucarística”.
Refiro-me aqui a uma ênfase excessiva na Eucaristia que acaba negligenciando todos os demais aspectos da vida da Igreja, vividos pelo povo entre os domingos, e as grandes festas. Isso tende a gerar um episcopocentrismo e um clericalismo que transformam os fiéis em consumidores passivos e o clero em provedores da “única coisa” que nos faria Igreja.
Enfim, desculpem-me por este texto longo e provocativo. São reflexões do dia de hoje. Que também nós nos deixemos “chamar do Egito”, depois das grandes festas e no intervalo entre os domingos, meus amigos.
Versão brasileira: João Antunes
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