RECEBENDO UNS AOS OUTROS COMO CRIANCINHAS

Chegaram a Cafarnaum e, quando estavam em casa, Jesus perguntou: ‘Que discutíeis pelo caminho?’. Ficaram em silêncio porque, no caminho, tinham discutido uns com os outros sobre qual deles era o maior. Sentando-se, chamou os Doze e disse-lhes: ‘Se alguém quiser ser o primeiro, há-de ser o último de todos e o servo de todos’. E, tomando um menino, colocou-o no meio deles, abraçou-o e disse-lhes: ‘Quem receber um destes meninos em meu nome é a mim que recebe; e quem me receber, não me recebe a mim mas àquele que me enviou’.” (Marcos 9,33-37)

Na leitura do Evangelho de hoje, Nosso Senhor liga uma lição sobre a liderança humilde na Igreja ao elogio daqueles que “recebem” as crianças, especificamente as criancinhas. Pense bem, não em anjinhos ideais, mas nas crianças reais: as que têm pouca ou nenhuma instrução, às vezes se comportam mal, falam fora de hora, choram ou querem brincar em momentos inadequados, tendem a ficar entediadas na igreja e, às vezes ou com frequência, desafiam a agenda ou a mentalidade dos adultos de diversas formas.

Se você continuar lendo este capítulo, alguns versículos adiante, Cristo se refere aos crentes simples ou com espírito infantil como “estes pequeninos”, quando diz:
E se alguém escandalizar (do grego skandalízein, fazer tropeçar) um destes pequeninos que creem em mim, melhor seria para ele atarem-lhe ao pescoço uma dessas mós que são giradas pelos jumentos, e lançarem-no ao mar” (Marcos 9,42).

Assim, a grande lição e o sério aviso aqui dirigem-se tanto aos líderes da Igreja quanto a “qualquer um” que seja adulto na fé: tratar com mansidão aqueles que creem, mas que ainda carecem de experiência, conhecimento ou compreensão.

À luz desta passagem, chama-me a atenção o fato de que, no código canônico ortodoxo, existem vários cânones que proíbem ofender clérigos e hierarcas (Cânones “dos Santos Apóstolos” 55 e 56), mas não há nenhum que, nos mesmos termos, proíba clérigos e hierarcas de ofender os fiéis. Existem cânones que proíbem o clero de escandalizar ou levar os fiéis ao desespero de diversas maneiras, como o Cânon 3 de Niceia I e o Trulano 102. Ainda assim, o instinto da liderança eclesial, nos casos em que um clérigo “escandalizou” os fiéis, parece continuar sendo proteger o “bom nome da Igreja”, não defendendo ou amparando as vítimas, mas de algum modo encobrindo o responsável.

Independentemente disso, penso que o mais importante é como cada um de nós, como cristãos, seja qual for nosso lugar na Igreja, pode aplicar o que o Senhor nos diz nesta passagem ao contexto atual. Não para soar moralista, pois isto é mais uma “nota para mim mesmo”. Na era das redes sociais, quando encontramos ignorância, acessos de raiva ou mau comportamento em postagens e comentários quase diariamente, pode ser difícil não se irritar ou não responder de forma ríspida.

Vou anotar para mim, num post-it, ao menos por hoje:
E se alguém escandalizar um destes pequeninos que creem em mim…

Senhor, ajuda-nos, salva-nos e guarda-nos, Teus pequeninos, pela Tua graça!
Feliz sexta-feira, queridos amigos e também adversários!

Versão brasileira: João Antunes

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