
“Em seguida, o diabo conduziu-o a um monte muito alto e, mostrando-lhe todos os reinos do mundo com a sua glória, disse-lhe: ‘Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares’. Respondeu-lhe Jesus: ‘Vai-te, Satanás, pois está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto’.” (Mateus 4,8ss)
A leitura do Evangelho em algumas de nossas igrejas hoje é Mateus 4,1-11, que fala do Senhor sendo “conduzido pelo Espírito” ao deserto por quarenta dias logo após o Seu batismo, “a fim de ser tentado pelo diabo” três vezes:
- transformar pedras em pães, “Se Tu és o Filho de Deus”;
- lançar-Se do alto do templo e ser preservado pelos anjos, “Se Tu és o Filho de Deus”;
- e a tentação citada acima, sobre a qual estou refletindo nesta manhã.
Isso significa que o mundo e os seus “reinos” pertencem ao diabo? Se não, por que então o mundo parece estar tão desordenado? Não estaríamos todos nós, e o próprio mundo, “corretos” se Cristo estivesse no comando, ou ao menos se um líder cristão estivesse? E essa tentação é relevante apenas para os governantes de impérios do nosso mundo, ou cada um de nós consegue se reconhecer nela, de algum modo?
O Senhor nos mostra aqui, na verdade, que Ele é Aquele a quem pertencem “o Reino e o poder e a glória”. Mas como Ele exerce a Sua autoridade, livre da corrupção do servir-se a si mesmo, não é do jeito que o diabo ou os seus servos desejariam. O diabo gostaria que Cristo, e também os cristãos, agissem de forma interesseira, justamente porque isso leva à escravidão humana, a ele, e, no fim das contas, à autodestruição. Cristo permanece livre das ambições do diabo e Se mantém fiel à vontade do Seu Pai, cheio do Espírito Santo que O conduziu ao deserto para essa “provação”. Assim como Ele também nos conduz ao deserto das nossas vidas depois do nosso batismo.
Deus nos manifesta, em Seu Filho, o modo correto de exercer o Seu poder, em sintonia com a Sua vontade e com a Sua Palavra. “Se Tu és o Filho de Deus”, se és tão especial assim, como um filho “eleito” de Deus, o diabo às vezes sussurra a cada um de nós, ou até a uma Igreja inteira, ou a uma nação inteira, então vá em frente, mostre sua força e “corrija” o que está faltando na sua vida, transforme pedras em pães, mostre aos outros o quanto você é especial, fazendo algo imprudente, como se jogar do alto do templo ou invadir outra nação, e ainda sair ileso, e assuma o controle “de todos os reinos do mundo”, porque você pode! Mas, nesse ponto, você estará escravizado a mim, melhor dizendo, estará até me adorando, é isso que o diabo está dizendo.
Porque o diabo não tem a ver com liberdade, a liberdade que Deus oferece por meio do Seu Espírito unificador. Ele tem a ver com a própria vontade dele, que é apenas uma entre muitas vontades fora de Deus. A submissão a qualquer vontade que não seja a de Deus, inclusive a nossa própria, quando não está em sintonia com a d’Ele, leva inevitavelmente à escravidão. No fim, isso é autodestrutivo, porque a graça de Deus é a fonte da Vida e da Luz, sem as quais acabamos por definhar e morrer.
Assim, o diabo tenta oferecer a Cristo atalhos, sugerindo que Ele “corrija” certas coisas afirmando-Se a Si mesmo, usando o Seu próprio poder fora da vontade do Pai. Mas não é assim que o nosso Deus Uno e Trino age. Ele age em tri-unidade, baseada numa obediência que nasce do amor, não de um poder voltado para si mesmo.
No nosso mundo, esse tipo de liberdade, que Deus estende a todos nós, permitindo que escolhamos ser do lado do bem ou do mal, parece uma grande confusão. Não parece exatamente um “êxito” na garantia de unidade e harmonia em todos os lugares. Talvez algumas, ou até muitas pessoas na Coreia do Norte, acreditem que a unidade e a harmonia tenham sido alcançadas com êxito, pela submissão de todos a uma única vontade naquele país. É simples, e o país aparenta estar em paz. Mas, neste sábado de manhã, confesso que prefiro a “desordem” que temos a esse tipo de “correção”.
Feliz fim de semana, queridos amigos!
Versão brasileira: João Antunes
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