
“Disseram [uns fariseus]: ‘Moisés mandou escrever um documento de repúdio e divorciar-se dela’. Jesus retorquiu: ‘Devido à dureza do vosso coração é que ele vos deixou esse preceito (ἐντολὴν). Mas, desde o princípio da criação, Deus fê-los homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher, e serão os dois um só. Portanto, já não são dois, mas um só. Pois bem, o que Deus uniu não o separe o homem’.” (Marcos 10,4-9)
A leitura do Evangelho de hoje, Marcos 10,2–12, faz-me pensar não tanto nas regras sobre o divórcio, que variam entre as nossas diferentes Igrejas. Penso, sobretudo, na parte citada acima, em que o Senhor nos leva de volta ao início da Criação, para nos lembrar do sentido mais profundo da diferença entre homem e mulher, que é a unidade.
Cristo faz referência aos dois relatos da Criação presentes em Gênesis 1 e 2. Ele cita aquilo que os estudiosos chamam de relato “sacerdotal” de Gênesis 1,27b, “Ele os criou homem e mulher”, e acrescenta a citação “javista” de Gênesis 2,24: “Por esse motivo, o homem deixará o pai e a mãe…”. O primeiro relato de Gênesis 1 apresenta Eva criada junto com Adão, depois de todos os animais. Já o relato de Gênesis 2 apresenta Eva criada depois de Adão e de todos os animais, e depois que Adão não consegue encontrar, entre os animais, “uma auxiliar semelhante a ele” (Gênesis 2,18b). Nesse segundo relato, Deus cria Eva a partir da costela de Adão enquanto ele dorme e, em seguida, a conduz até ele. Adão a reconhece imediatamente como parte intrínseca de si mesmo e exclama: “Esta é, realmente, osso dos meus ossos e carne da minha carne. Chamar-se-á mulher, visto ter sido tirada do homem!” (Gênesis 2,23). E logo depois disso, a Bíblia afirma: “Por esse motivo, o homem deixará o pai e a mãe, para se unir à sua mulher…”, seguido da frase: “Estavam ambos nus, tanto o homem como a mulher, mas não sentiam vergonha” (Gênesis 2,25).
Mas as coisas deram errado não porque homem e mulher fossem diferentes demais para se “verem” como partes distintas de um mesmo todo. O problema foi que a capacidade de “ver” qualquer pessoa diferente de si mesmo foi quebrada pelo pecado, pela desconexão com Deus através da perda da fé. Eles acreditaram mais na serpente do que em Deus. E Deus é a nossa fonte de Luz, Aquele que nos capacita a ver verdadeiramente, como Ele vê toda a Criação, como uma unidade. Quando nos desconectamos d’Ele, colhemos medo em vez de fé, porque o oposto da fé é o medo, que bloqueia ou distorce a nossa visão. Ainda assim, Deus trabalha conosco mesmo nesse estado ferido, permitindo até que Moisés apresentasse um Plano B, um “preceito” que ajudasse as pessoas a se divorciarem quando permanecer juntas se tornava insuportável.
O pequeno ponto que quero destacar nesta longa reflexão é que, “desde o princípio”, fomos criados com outros que são diferentes de nós. Na nossa fragilidade, é difícil “vê-los” como parte de nós, e a nós mesmos como parte deles, mas é assim que Deus nos vê, como pequenas tesselas de um grande mosaico. Nós não nos “desquebramos” nem “retornamos à plenitude” (somos “salvos”) da noite para o dia, nem apenas por compreender isso intelectualmente. Nem os “outros”, nas nossas relações feridas, o fazem. A “salvação”, entendida como “retorno à plenitude”, é um processo que dura toda a vida e leva tempo.
Em termos práticos, o que posso fazer com o meu eu ferido nesta manhã de terça-feira é trabalhar um pouco a minha fé, que dissipa o medo, reconectar-me com Deus nas minhas pequenas orações, enquanto sigo cuidando das minhas responsabilidades de hoje, colocando um pé diante do outro. Deus me vê, e vê a todos nós, como parte do Seu todo, mesmo na nossa fragilidade, que Ele está disposto e é capaz de recolher na Sua amorosa Unidade, mesmo que precisemos de um Plano B, C ou qualquer outro. O essencial é que trabalhemos a nossa fé, reconectando-nos com Deus, em vez de ficar remexendo as feridas dos nossos medos.
Ajuda-nos, salva-nos, tem piedade de nós e conserva-nos, a todos, ó Deus, pela Tua graça.
Versão brasileira: João Antunes
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