
“Esta paixão [a inveja] é, antes de tudo, um prejuízo pessoal para aquele que dela é culpado e não causa o menor dano aos outros. […] A inveja é a dor provocada pela prosperidade do próximo. Por isso, a pessoa invejosa nunca fica sem motivo para tristeza e abatimento.”
(São Basílio Magno, Sobre a Inveja)
As Igrejas que seguem o Calendário Juliano Tradicional celebram hoje tanto a Circuncisão do Senhor quanto São Basílio Magno, que morreu aos 49 anos, em 379 d.C., tendo impactado praticamente todos os aspectos da tradição da Igreja Cristã Ortodoxa. Assim, nesta manhã, ao rever minhas anotações de leituras feitas anos atrás das obras reunidas de São Basílio, e embora o tema pareça aleatório para o dia de hoje, lembrei-me de como achei deliciosamente citável seu pequeno ensaio Sobre a Inveja. Ele é apenas um pequeno testemunho de quanto Basílio viveu e refletiu sobre a vida em Cristo, não sem um leve toque de humor.
A vida de São Basílio foi complexa. Ele nasceu em uma família numerosa e santa, realizou estudos extensos tanto em disciplinas acadêmicas cristãs quanto pagãs, teve uma breve carreira como professor de direito e retórica, que abandonou para assumir uma vida ascética solitária, também de curta duração, após encontrar o carismático bispo asceta Eustáquio de Sebaste, que se tornou seu mentor. Houve depois uma ruptura com esse mentor por questões dogmáticas, a fundação de uma comunidade monástica que incluía parentes mulheres, sua ordenação como diácono aos 32 anos, presbítero aos 35 e bispo aos 40. Envolveu-se intensamente em disputas políticas e dogmáticas da Igreja, e vale lembrar que essas sempre estiveram entrelaçadas em maior ou menor grau. Ao longo desse percurso, mudou de posição, passando de um apoio inicial aos homoiousianos para se tornar um firme defensor do Credo Niceno, demonstrando, ao mesmo tempo, disposição para dialogar e fazer concessões quando possível. Podia ser inflexível, como quando o imperador Valente enviou seu prefeito para persuadi-lo a aceitar um compromisso com os arianos. Após falar com São Basílio, o prefeito comentou que ninguém jamais lhe havia falado “daquela maneira”, ao que Basílio respondeu: “Talvez você nunca tenha tido de lidar com um bispo”. Ele ajudou continuamente os pobres e necessitados, contribuiu para a reforma e o enriquecimento da Liturgia, e a lista poderia prosseguir.
Retornando às reflexões citadas acima em Sobre a Inveja, percebemos que São Basílio aprendeu muito sobre si mesmo e sobre os outros ao longo de tudo isso. Sua observação de que a inveja faz com que nossas vidas fiquem “nunca sem motivo para tristeza e abatimento” permanece viva em minha mente, não apenas em relação à inveja, mas também a muitas outras obsessões que desperdiçam tempo. Tomemos a ira, por exemplo, a ira diante do que está errado em nossa sociedade e em nosso mundo, algo constantemente exposto nas notícias. Isso pode fazer com que nossas vidas fiquem “nunca sem motivo para tristeza e abatimento”, sentimentos que nos paralisam no viver de nossas vocações, por menores ou aparentemente insignificantes que sejam, com a alegria e a gratidão, e até com um pouco de humor aqui e ali, que estão sempre ao nosso alcance quando Cristo está no meio de nós. Ou pensemos no “amor não correspondido”, que às vezes considero uma forma de inveja, pois envolve o desejo por algo que não nos pertence, e que também se torna motivo para viver “nunca sem causa para tristeza e abatimento”. Há ainda a ganância, igualmente ligada à inveja, e o egocentrismo, que do mesmo modo nos levam a desperdiçar tempo.
Pelas orações de São Basílio, que viveu seus complexos 49 anos com tanta atenção, querido Deus, ajuda-nos a fazer hoje ao menos um pouco do que nos é possível, para a Tua maior glória.
Versão brasileira: João Antunes
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