AS «CORRENTES» DAS NOSSAS VOCAÇÕES

Hoje fazemos memória da pequena festa da Veneração das Correntes de São Pedro (Calendário Juliano Revisado), com as quais o Apóstolo foi acorrentado quando esteve preso por Herodes, em Jerusalém. Mas um anjo do Senhor apareceu na prisão durante a noite, quando “a Igreja orava a Deus, instantemente, por ele”, removeu as correntes de Pedro e o conduziu para fora (Atos 12). Os cristãos de Jerusalém recolheram essas correntes como relíquias preciosas, que mais tarde chegaram a Constantinopla e a Roma. Há aqui em Roma, onde por acaso estou neste momento, uma basílica chamada “San Pietro in Vincoli”, onde essas correntes estão expostas em um belo relicário (veja a foto publicada aqui).

Recordo-me das palavras de São Paulo, que também esteve preso e acorrentado, quando escreveu no final da Carta aos Colossenses: “Lembrai-vos das minhas cadeias” (4,18). E também de suas palavras a Timóteo, escritas da prisão romana, quando afirma que “a Palavra de Deus não pode ser acorrentada” (2ª Timóteo 2,9).

Por que precisamos “lembrar as cadeias” dos Santos Apóstolos? Porque isso faz parte da experiência da Igreja Apostólica, a experiência de, em certos momentos, estarmos presos pelas diversas vocações que recebemos. A vocação que Deus nos concede pode, às vezes, parecer uma prisão, na qual somos conduzidos por outros (filhos, cônjuge, pais, chefe) a lugares e situações onde não gostaríamos de estar, impedindo-nos de fazer aquilo que preferiríamos.

Além disso, os limites da nossa liberdade externa tendem a aumentar com a idade. O processo de envelhecimento primeiro traz um acréscimo de responsabilidades e, mais tarde, limitações físicas que ampliam nossa dependência dos outros. O Senhor diz a São Pedro a respeito disso: “quando eras mais novo, tu mesmo atavas o cinto e ias para onde querias; mas, quando fores velho, estenderás as mãos e outro te há-de atar o cinto e levar para onde não queres” (João 21,18).

Para os fiéis, como Pedro, o envelhecimento em Cristo é uma espécie de martírio. Não no sentido de nos deixarmos levar de qualquer maneira, mas com o coração centrado n’Ele, discernindo a voz de Deus e Sua Palavra em nossa vida. A nossa cruz, a cruz d’Ele, ao mesmo tempo nos limita e nos fortalece, capacitando-nos com cada vez mais clareza a discernir o contorno estreito, quase poderíamos dizer cruciforme, de quem somos e do que somos, essencialmente, à medida que envelhecemos.

Assim como uma obra de arte é valorizada pela sua moldura, cada um de nós também é realçado e revelado pela cruz que nos delimita. Como disse Chesterton em algum lugar: “a essência de cada quadro é a moldura”. Se escolhemos abraçar a fé, e não o medo, nesse processo, se trabalhamos diariamente a nossa fé, atentos às novidades que Deus nos revela por meio das nossas fragilidades crescentes e, talvez, de uma solidão maior, quando estamos mais frequentemente a sós com Ele, o que se torna mais claro é a nossa identidade como Seus filhos e filhas.

Surge então uma nova paz e uma nova liberdade, que se abrem para nós quando vivemos a fé do Cordeiro que é conduzido não essencialmente por mãos humanas, mas pela Palavra de Deus, que não pode ser acorrentada. Essa Palavra sempre nos conduz a sermos nós mesmos, aqueles que Deus chama cada um a ser, como Seus filhos e filhas únicos.

Senhor, ajuda-nos a aceitar as nossas correntes, pelas orações dos Teus santos apóstolos, não como escravos dos homens, mas como Tuas testemunhas, dando testemunho da vida nova para a qual nos conduzes. Amén!

Feliz sexta-feira, queridos amigos!

Versão brasileira: João Antunes

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