
Hoje, enquanto as pessoas que seguem o Calendário Juliano Tradicional celebram a Pré-festa do Batismo do Senhor, e as Igrejas que seguem o Calendário Juliano Revisado fazem memória do dia de Santo Antão, o Grande, penso em dois habitantes do deserto, João Batista e Santo Antão. O que o deserto, ou a “solidão selvagem”, significa na vida deles, e como podemos nos relacionar com isso?
Não sabemos nada sobre o que João fazia em sua solidão no deserto, antes que sua “voz que clama no deserto” começasse a atrair multidões de moradores das cidades. Mas podemos presumir que fosse algo semelhante ao que Antão fazia. Antão se dedicava ao jejum e à oração solitários, por meio dos quais combatia diversas tentações, como o tédio, a preguiça e os “fantasmas de mulheres”, provocados pelos demônios. O deserto desabitado fervilhava de demônios, até que a oração perseverante de Antão, junto com sua abstinência daquilo que eles ofereciam, limpou aquele lugar do domínio maligno deles. Esse “trabalho” levou pelo menos quinze anos, depois dos quais Antão começou a atrair pessoas que queriam aprender com ele, e muitas que desejavam até viver lado a lado com ele, naquele lugar agora seguro que ele havia criado, ou co-criado, com o poder de Deus. Assim, a “pegada humana” no deserto foi algo bom, porque era uma pegada humana divinizada.
Depois do nosso batismo, todos nós saímos para o nosso próprio “deserto”, que é a nossa vida, mais ou menos cheia de demônios. Até o próprio Senhor foi “conduzido pelo Espírito ao deserto” depois do seu batismo, “a fim de ser tentado pelo diabo” (Mateus 4,1). Temos um trabalho importante a fazer nos nossos respectivos desertos, tanto dentro quanto fora de nós, para que o espaço que ocupamos neste mundo se torne um refúgio para os outros. Temos em nós uma pequena semente de fé plantada, que devemos permitir que Deus faça crescer até se tornar uma árvore bela e frondosa, “a ponto de virem as aves do céu abrigar-se nos seus ramos” (Mateus 13,32), como o Senhor nos ensina na Parábola do Grão de Mostarda.
O sentido da solidão e da disciplina ascética, que talvez pensemos não serem acessíveis ou até desejáveis para nós, é parar de lutar ou competir com outros seres humanos, para podermos limpar o coração e focar na raiz, ou nas raízes, daquilo que torna o “espaço” dentro e fora do nosso coração inabitável ou pouco acolhedor para Deus e para os outros. Não precisamos nos mudar para o deserto para encontrar momentos a sós com Deus. Houve e há pessoas que viveram e vivem em grandes cidades, como os loucos-por-Cristo, que encontraram maneiras criativas de sair da corrida insana da competição, mesmo vivendo no meio dela. Às vezes, Deus faz isso por nós quando não conseguimos fazer sozinhos. Ele permite que percamos algo ou alguém, por meio de doenças físicas ou de outro tipo, nossas ou deles, ou simplesmente pelo processo do envelhecimento, que nos tira dessa corrida pelo menos em certa medida. Podemos nos ver, então, sozinhos com nossos “demônios” de maneiras novas, não muito diferentes dos desafios enfrentados por Antão em seu deserto. Esses são desafios que nos dignificam, porque Deus nos chama a colaborar com Ele no grande projeto de nos redimir e de redimir o mundo, em cada um dos nossos pequenos espaços.
Deus, que façamos hoje a nossa pequena parte, para reenfocar e resgatar, tomar de volta, o nosso tempo, pelas orações de João Batista, de Santo Antão e de todos os Teus santos. Amén!
Versão brasileira: João Antunes
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