
Enquanto as Igrejas que seguem o Calendário Juliano Tradicional celebram hoje a festa do Batismo do Senhor, ocasião em que a água é abençoada nas celebrações litúrgicas e as pessoas a levam para casa, para beber, abençoar seus lares, locais de trabalho, entre outros usos, estou refletindo sobre esses costumes ligados à água benta. Alguém poderia perguntar: afinal, toda água não é abençoada, santificada por Jesus Cristo hoje, quando Ele foi mergulhado nas águas do Jordão? Por que, então, valorizamos a água abençoada na igreja por um sacerdote e a levamos para casa para nos abençoar e abençoar nossos lares?
Creio que o próprio Cristo nos ensina a receber a bênção dos outros, especialmente dos sacerdotes, como algo adequado e justo, quando Ele mesmo vai ao Jordão não para Se batizar, mas para ser batizado e abençoado por João, cuja missão ou ministério era justamente abençoar os outros dessa forma. O Evangelista Mateus escreve: “João opunha-se, dizendo: ‘Eu é que tenho necessidade de ser batizado por ti, e Tu vens a mim?’. Jesus, porém, respondeu-lhe: ‘Deixa por agora. Convém que cumpramos assim toda a justiça’. João, então, concordou” (Mateus 3,14s).
Esse trecho nos mostra que “toda a justiça” envolve receber as bênçãos do ministério dos outros, permitir que os outros nos abençoem conforme as vocações que Deus lhes confiou. Isso faz todo sentido, porque “justiça”, no hebraico (Tzedek e Tzedakah), é um conceito relacional. Significa estar alinhado com Deus, consigo mesmo e com os outros, cumprindo, por meio de ações concretas, as responsabilidades que Deus nos confiou em relação a Ele, a nós mesmos e ao próximo. Também implica permitir que os outros cumpram suas responsabilidades segundo suas vocações. Em outras palavras, significa acolher as bênçãos que nos são oferecidas por meio dos outros e de seus chamados.
Esse é o sentido de receber a água benta, abençoada pelas mãos dos sacerdotes em nossas igrejas. É também por isso que não nos batizamos a nós mesmos, nem damos a nós mesmos a Sagrada Comunhão, e assim por diante. Da mesma forma, não tratamos nossos próprios dentes, procuramos um dentista. Em termos gerais, somos chamados a permitir que os outros, nós mesmos e Deus façamos aquilo que cabe exclusivamente a cada um, ou somente a Ele.
Quando nós ou alguém deixa de cumprir o que lhe cabe, ou ultrapassa seus limites de responsabilidade ou autoridade, surgem muitos problemas, inclusive o que chamamos de “pecado”. Isso acontece o tempo todo, porque não somos perfeitos. Ainda assim, a festa de hoje, entre tantas mensagens profundas, nos oferece um lembrete gentil e iluminado: sermos nós mesmos e permitirmos que os outros também sejam quem são.
Feliz Epifania a todos os que a celebram hoje!
Versão brasileira: João Antunes
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