SOBRE A SUBMISSÃO ÀS AUTORIDADES GOVERNANTES

Que todos se submetam às autoridades públicas, pois não existe autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram estabelecidas por Deus. Por isso, quem resiste à autoridade opõe-se à ordem querida por Deus, e os que se opõem receberão a condenação. É que os detentores do poder não são temidos por quem pratica o bem, mas por quem pratica o mal. Não queres ter medo da autoridade? Faz o bem e receberás os seus elogios. De fato, ela está ao serviço de Deus, para te incitar ao bem. Mas, se fazes o mal, então deves ter medo, pois para alguma coisa ela traz a espada. De fato, ela está ao serviço de Deus para castigar aquele que pratica o mal. É por isso que é necessário submeter-se, não só por medo do castigo, mas também por razões de consciência.” (Romanos 13,1-5)

Resistir a qualquer autoridade governante é pecado? Não. O próprio São Paulo, que escreveu a Epístola aos Romanos citada acima, foi decapitado pelas autoridades romanas porque pregava o Evangelho, o qual era visto como perturbador da ordem romana. Assim, as autoridades romanas não eram o tipo de autoridade que São Paulo descreve acima, que deveria ser “temida não por quem pratica o bem, mas por quem pratica o mal”. As autoridades romanas tornaram-se um temor não por quem pratica o mal, mas por quem pratica o bem.

E quanto aos monges e monjas, que fizeram votos de obediência, não deveriam calar-se e obedecer a qualquer autoridade governante? Não. Até mesmo os contemplativos habitantes do deserto, na tradição cristã, tiveram problemas com as autoridades governantes, começando por João Batista, celebrado hoje nas Igrejas Ortodoxas, por ser uma terça-feira (já que toda terça é o seu dia) e porque, no Calendário Juliano Tradicional, é a sua festa, um dia após a Teofania. João Batista foi preso e decapitado por Herodes por dizer uma verdade desagradável a esse governante.

O grande asceta e teólogo Máximo, o Confessor, teve a língua e o braço direito cortados pelas autoridades governantes, que contavam com pleno apoio das autoridades eclesiásticas daquele tempo, porque Máximo tanto falou quanto escreveu contra os seus ensinamentos heréticos. Um século depois, durante o período da iconoclastia bizantina, foram principalmente os monges e monjas que resistiram àquela promovida tanto pelas autoridades da Igreja quanto do Estado. A monja e hinógrafa bizantina Kassiani disse então: “Odeio o silêncio quando é tempo de falar”.

O grande líder monástico Teodoro, o Estudita, foi várias vezes banido do seu mosteiro em Constantinopla pelas autoridades governantes, primeiro por se manifestar contra o segundo casamento do imperador e, mais tarde, por se opor à iconoclastia. Nesse contexto, Teodoro e os seus monges foram submetidos à prisão e a açoites.

Nos nossos dias, em que o autoritarismo está em ascensão, do tipo que é um temor não por quem pratica o mal, mas por quem pratica o bem, vejo alguns cristãos nas redes sociais citando as palavras de São Paulo dos versículos iniciais da passagem acima, chamando outros a calarem-se e a rezarem, sem resistir às autoridades de qualquer outra forma. Também recebo mensagens pessoais quase todos os dias pedindo-me que me cale e reze, especificamente porque sou monja e, na visão dessas pessoas, não é minha função falar ou escrever sobre temas que envolvam “política” ou líderes políticos. Sugiro que coloquemos isso de lado.

Pelas orações de nossos pais e mães, ó Salvador, salva-nos e conserva-nos pela Tua graça.

(Acima está uma foto da Basílica de São Paulo Extramuros, em Roma, que abriga o túmulo de São Paulo.)

Versão brasileira: João Antunes

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