
“Pedro, recordando-se, disse a Jesus: ‘Olha, Mestre, a figueira que amaldiçoaste secou!’. Jesus disse-lhes: ‘Tende fé em Deus. Em verdade vos digo, se alguém disser a este monte: Tira-te daí e lança-te ao mar, e não vacilar em seu coração, mas acreditar que o que diz se vai realizar, assim acontecerá. Por isso, vos digo: tudo quanto pedirdes na oração crede que já o recebestes e haveis de obtê-lo. Quando vos levantais para orar, se tiverdes alguma coisa contra alguém, perdoai-lhe primeiro, para que o vosso Pai que está no céu vos perdoe também as vossas ofensas. Porque, se não perdoardes, também o vosso Pai que está no Céu não perdoará as vossas ofensas’.” (Marcos 11,21-26)
A leitura do Evangelho de hoje pode ser vista como um exemplo de uma resposta “simples” do Senhor diante do espanto dos discípulos perante um fenômeno nada simples, quase desconcertante. Seria compreensível que alguém dissesse ou pensasse, após ouvir a resposta do Senhor citada acima: “Senhor, não é tão simples assim para nós!”.
Isso me recorda uma conversa recente que ouvi entre dois especialistas, digamos assim, em política eclesiástica ortodoxa. Em certo momento, um deles comentou sobre a “personalidade complicada” de um determinado bispo, como forma de justificar o comportamento aparentemente inadequado desse bispo. O outro interlocutor respondeu: “Mas, na Parábola do Bom Pastor…”, apontando para o tipo de comportamento que deveríamos esperar dos líderes da Igreja à luz dessa parábola. Diante disso, o primeiro comentou: “Isso é uma simplificação excessiva”, voltando a destacar a complexidade da personalidade em questão.
Embora eu compreenda que não seja bom julgar ninguém, exceto a nós mesmos, segundo os padrões do Evangelho, também penso que não é saudável descartar o Evangelho como uma “simplificação excessiva” quando se trata da nossa visão do que é normal e normativo na vida cristã. Em uma época em que o anormal está sendo cada vez mais normalizado, especialmente no campo da liderança, seja eclesial, seja política, torna-se fácil, mas no fim das contas destrutivo, de modo consciente ou inconsciente, aceitar o inaceitável como o novo normal.
Você pode acabar dizendo coisas como: “Sim, é algo horrível atirar três vezes no rosto de uma mulher por ela ter obstruído o trânsito e ainda estar indo embora, mas, afinal, o atirador está autorizado pelo nosso líder, e isso é a lei”. Afinal, nossos líderes são, em certo sentido, modelos de imitação, é por isso que são chamados de líderes, pessoas a quem seguimos. E, assim, torna-se fácil ajustar o nosso próprio senso de certo e errado ao deles.
Independentemente de conseguirmos ou não mudar a liderança atual, é fundamental, nesse contexto, lembrarmo-nos do nosso Líder primordial e escutarmos a Sua voz. Não é fácil, mas é simples.
Voltando à mensagem do Evangelho de hoje, ouço o essencial dela assim: ter fé ao rezar e perdoar as ofensas pessoais ao rezar. Isso não significa, aliás, ser indiferente ao que há de errado no mundo, caso contrário o Senhor não teria feito o que fez com a figueira, gesto que demonstrou Seu desagrado diante da hipocrisia e da consequente esterilidade das autoridades religiosas de Israel naquele tempo.
Senhor, move hoje os nossos montes e perdoa-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aos que nos têm ofendido.
Feliz quarta-feira, queridos amigos!
Versão brasileira: João Antunes
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