OS DISCURSOS EM DAVOS, E SÃO PEDRO

“Pedro, Apóstolo de Jesus Cristo, aos que peregrinam na diáspora do Ponto, da Galácia, da Capadócia, da Ásia e da Bitínia… [Os incrédulos] Tropeçam nela [uma pedra de escândalo] porque não creram na palavra; para isso estavam destinados. Vós, porém, sois linhagem escolhida, sacerdócio régio, nação santa, povo adquirido em propriedade, a fim de proclamardes as maravilhas daquele que vos chamou das trevas para a sua luz admirável; a vós que outrora não éreis um povo, mas sois agora povo de Deus, vós que não tínheis alcançado misericórdia e agora alcançastes misericórdia.” (1ª Pedro 1,1.2,8b-10)

Nesta manhã, estou a pensar tanto na passagem acima citada da Epístola de hoje como nos discursos feitos recentemente por vários líderes mundiais em Davos. Tanto São Pedro quanto esses líderes refletem sobre aquilo que nos torna “nós”, cada um a partir da sua visão de mundo, num tempo em que “nós” somos confrontados por “eles”, que sustentam visões de mundo bastante diferentes.

O apóstolo Pedro explica aos cristãos que peregrinam na diáspora como e porque agora eles foram unidos num só “povo”, tendo recebido um novo propósito, uma nova identidade e um novo sentido de pertença. “Outrora não éreis um povo”, escreve ele, “mas sois agora povo de Deus… a fim de proclamardes as maravilhas daquele…”. Convém recordar que esse novo senso de identidade levou os cristãos a serem vistos com desconfiança pela sociedade romana, pois eles não participavam dos rituais romanos que envolviam a adoração de ídolos, incluindo o culto ao imperador. O próprio São Pedro foi executado pelas autoridades, juntamente com muitos outros cristãos, quando o imperador Nero os transformou em bodes expiatórios pelo Grande Incêndio de Roma.

À luz disso, é interessante notar que, em Davos, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, observou que os sistemas totalitários se sustentam “não apenas pela violência, mas pela participação de pessoas comuns em rituais que, em privado, sabem ser falsos”. Ele apelou para que “nós”, enquanto países e empresas, deixemos de participar desses rituais e “não vivamos dentro da mentira”. Ainda assim, convocou-nos a sermos simultaneamente “de princípios e pragmáticos”, referindo-se ao “realismo baseado em valores” de Alexander Stubb, presidente da Finlândia.

O presidente da França, Emmanuel Macron, também tentou equilibrar princípios e pragmatismo, alertando contra “a adoção de uma postura puramente moral” e defendendo, em vez disso, “um materialismo eficiente”. Mas, ao encerrar o seu discurso, usando os seus característicos óculos de aviador, Macron sublinhou aquilo que “nós” preferimos, enquanto pessoas que prezam o Estado de Direito e a sua previsibilidade como “um bom lugar” para viver: “Preferimos o respeito ao invés dos valentões”, disse Macron, “a ciência ao invés do plotisme (teorias da conspiração, em francês), e o Estado de Direito ao invés da brutalidade”.

Esta não é, caros leitores, uma análise exaustiva das questões complexas em jogo. Reflitam mais profundamente sobre tudo isso. Quanto a mim, sinto-me desafiada, neste momento, a escutar com mais atenção o que o apóstolo Pedro e toda a Tradição dizem sobre quem “nós” somos enquanto Igreja. Temos uma identidade e um propósito, como “povo de Deus”, chamados a “proclamar as Suas maravilhas”, a não nos curvar diante de outros deuses, nem a ceder ao desespero e ao medo. Sou profundamente grata por esse chamado que nos dignifica e que partilhamos juntos.

Sou também grata pelos estadistas e pelas estadistas do nosso tempo, que se esforçam por articular um caminho a seguir. Independentemente do que possamos pensar sobre o lado confuso e difícil da liderança política, alguém precisa exercê-la. Rezemos por eles e uns pelos outros. E uma feliz sexta-feira para todos vocês.

Versão brasileira: João Antunes

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