PODEMOS TER ALEGRIA NESTES TEMPOS?

Caríssimos, não estranheis a fogueira que se ateou no meio de vós para vos pôr à prova, como se vos acontecesse alguma coisa estranha. Pelo contrário, alegrai-vos, pois assim como participais dos padecimentos de Cristo, assim também rejubilareis de alegria na altura da revelação da sua glória. Que nenhum de vós tenha de sofrer por ser homicida, ladrão, malfeitor, ou por se intrometer na vida alheia. Mas, se sofre por ser cristão, não se envergonhe, antes glorifique a Deus por ter este nome.” (1ª Pedro 4,12s.15s)

Podemos nos alegrar agora, como o grande apóstolo Pedro nos exorta na leitura da Epístola de hoje? Nas belas cidades da Ucrânia, idosos, crianças e milhões de outras pessoas estão congelando em suas casas, enquanto a Rússia continua seu bombardeio genocida do que resta da infraestrutura civil vital. Nos Estados Unidos, as ruas manchadas de sangue de Minneapolis continuam a ser aterrorizadas, com impunidade, por capangas autorizados pelo Estado.

Ainda assim, podemos, sim, alegrar-nos em nossos corações feridos, “assim como participamos dos padecimentos de Cristo”, como nos diz o Apóstolo, quando nos permitimos reconhecer os padecimentos do nosso Senhor nos sofrimentos dos inocentes e vulneráveis, vítimas da violência sem lei dos malfeitores. Note-se bem, a alegria da qual São Pedro fala não é tanto um sentimento, mas uma visão. É uma visão inspirada pela fé, pela esperança e pelo amor, que podemos escolher abraçar ao mantermos nosso olhar fixo em Cristo crucificado e ressurreto.

Que nenhum de vós tenha de sofrer por ser homicida, ladrão, malfeitor”, escreve ainda São Pedro, “ou por se intrometer na vida alheia. Mas, se sofre por ser cristão, não se envergonhe, antes glorifique a Deus por ter este nome”. Aqui, ele nos adverte contra nos submetermos a formas não-cristãs de sofrimento, como fazem os homicidas, ladrões e malfeitores, que também sofrem. Foi por isso que os assassinos de Alex Pretti foram descritos por seu ex-comandante Bovino como “vítimas” daquela farsa, pois ele sente compaixão pelo sofrimento dos malfeitores.

O que o Apóstolo nos ensina, porém, é que não devemos nos alegrar nem nos submeter a esse tipo de sofrimento. Tampouco devemos sofrer “por se intrometer na vida alheia”, isto é, não nos entregarmos de modo compulsivo às últimas notícias, seja de Minneapolis, da Ucrânia ou de qualquer outro lugar, como se fossem fofocas. Como cristãos, somos chamados a escolher “participar dos padecimentos de Cristo” como um só Corpo, n’Ele.

Que, nesta quinta-feira, Dia dos Apóstolos, eu me foque novamente em nosso único Senhor, crucificado e ressurreto. E que eu agradeça a Deus por aqueles que demonstram resistência heroica à injustiça nas cidades manchadas de sangue dos Estados Unidos e da Ucrânia, elevando-os em minhas orações, participando, ainda que modestamente, de seu sofrimento digno.

Coragem, queridos amigos, e uma feliz quinta-feira.

Versão brasileira: João Antunes

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