OS PADRES DA IGREJA FORAM UM ÊXITO?

Recordai-vos dos vossos guias, que vos pregaram a palavra de Deus; observai o êxito da sua conduta e imitai a sua fé. Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e pelos séculos. Não vos deixeis levar por doutrinas diversas e estranhas, porque é bom que o coração seja fortalecido pela graça e não por alimentos, que de nada aproveitaram aos que insistiam nessa observância.” (Hebreus 13,7ss)

A citação acima é da leitura da Epístola de hoje para a festa (Calendário Juliano Revisado) dos Três Santos Hierarcas: São Basílio, o Grande, São Gregório, o Teólogo, e São João Crisóstomo. Isso nos mostra que essas palavras, originalmente escritas a respeito dos Apóstolos e de outros que difundiram a palavra de Deus na Igreja primitiva, hoje são aplicadas a esses santos bispos do século IV. Somos chamados a recordá-los e a imitar a fé que eles nos transmitiram em Jesus Cristo, que permanece “o mesmo ontem, hoje e pelos séculos”, em vez de sermos levados de um lado para outro por “doutrinas diversas e estranhas”. Somos também convidados a “observar o êxito” de seu modo de viver, isto é, as consequências da forma como viveram e ensinaram.

Qual foi, então, “o êxito” do modo de vida e do ensinamento dos Três Santos Hierarcas? Com o passar do tempo, anos depois de suas mortes, os três passaram a ser venerados como grandes Padres da Igreja, tanto no Oriente quanto no Ocidente. Contudo, essa não era uma opinião unanimemente aceita entre seus contemporâneos, outros bispos, na época de suas mortes. São Basílio, que combateu diversas heresias ensinadas por bispos que distorciam a doutrina da Santíssima Trindade, morreu em 379, aos 49 anos, dois anos antes de essas controvérsias serem mais ou menos resolvidas no Segundo Concílio Ecumênico de 381. Seu amigo, Gregório, o Teólogo (também conhecido como Gregório de Nazianzo), que inicialmente presidiu esse Concílio como Arcebispo de Constantinopla, renunciou de forma bastante dramática antes do seu encerramento, frustrado com as disputas políticas partidárias entre seus pares, que incluíam oposição direta a ele. Ele retomou por dois anos o cargo de Bispo de Nazianzo, período em que combateu os apolinaristas, mas depois se retirou por motivos de saúde e passou os últimos seis anos de sua vida na propriedade de sua família. Quanto a São João Crisóstomo, a maioria dos leitores sabe que ele morreu no exílio, em 407, desprezado na época por praticamente todos os principais bispos do Oriente.

Assim, se “observar o êxito” do seu modo de viver, veremos que, a curto prazo, durante suas vidas terrenas, os Três Santos Hierarcas não alcançaram aquilo que se poderia chamar de “êxito” dentro da Igreja de seu tempo. A longo prazo, porém, passamos a celebrá-los como vencedores, como aqueles cujos corações foram “fortalecidos pela graça”, como escreve o autor da Carta aos Hebreus. A lição que extraio de tudo isso é que devo fazer uma pausa e me abster de julgamentos hoje, quando observamos as controvérsias sobre quais bispos de nossas Igrejas Ortodoxas são “canônicos” ou “não canônicos”. Também podemos fazer uma pausa e relaxar um pouco ao julgar os resultados das batalhas que travamos em nossas próprias vidas pessoais e políticas. Considerando o resultado do modo de viver dos grandes Padres da Igreja, em grande parte marginalizados no final de suas vidas, Senhor, concedei-nos sabedoria e paciência, enquanto permaneces no meio de nós, “o mesmo ontem, hoje e pelos séculos”.

Versão brasileira: João Antunes

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