O PECADO DE CAIM CONTRA SI MESMO

Ao fim de algum tempo, Caim apresentou ao Senhor uma oferta de frutos da terra. Por seu lado, Abel ofereceu primogênitos do seu rebanho e as suas gorduras. O Senhor olhou com agrado para Abel e para a sua oferta, mas não olhou com agrado para Caim nem para a sua oferta. Caim ficou muito irritado e andava de rosto abatido. O Senhor disse a Caim: ‘Por que estás zangado e de rosto abatido? Se procederes bem, certamente voltarás a erguer o rosto; se procederes mal, o pecado deitar-se-á à tua porta e andará a espreitar-te. Cuidado, pois ele tem muita inclinação para ti, mas deves dominá-lo’.” (Gênesis 4,3-7)

Vemos Caim pecar contra si mesmo duas vezes.

Primeiro, ele não oferece a si próprio a Deus. Ele traz apenas “uma oferta” de algum fruto da terra, um sacrifício feito sem grande empenho ou entrega interior. Abel, ao contrário, oferece a Deus os “primogênitos do seu rebanho”, partilhando algo da sua própria vida.

Caim aparentemente não acreditava que uma oferta feita de todo o coração, vinda dele mesmo, realmente importaria para Deus. Isso revela não apenas, ou principalmente, uma desconfiança do amor de Deus, mas também uma falta de fé na própria importância que ele tinha para Deus.

A segunda vez em que Caim peca contra si mesmo ocorre quando ele não escuta as palavras encorajadoras de Deus no final do trecho citado:

Se procederes bem, certamente voltarás a erguer o rosto… [o pecado] tem muita inclinação para ti, mas deves dominá-lo”.

Caim não acredita que poderia melhorar, “proceder bem”, e “dominar o pecado” que estava à sua porta, como Deus o desafia a fazer. Em vez disso, apesar dessas palavras encorajadoras, depois de (não) ouvi-las, Caim vai e mata seu irmão. Ele escolhe ceder ao ressentimento e à ira, em vez de fazer aquilo que Deus o chamou a fazer, isto é, “proceder bem”, algo que ele era plenamente capaz de realizar.

Ceder ao ressentimento e à raiva é consequência de não fazer aquilo que somos chamados a fazer. Em grego, isso é chamado argia, que significa “ociosidade” ou “inatividade”.

Essa ociosidade acaba nos levando a fazer outra coisa, algo diferente daquilo para que fomos chamados. Os Padres gregos chamam isso de peri-ergia, que significa literalmente “fazer ao redor” ou “em torno” do que deveríamos estar fazendo.

Esse estado faz Caim desprezar a si mesmo, algo que também acontece conosco quando procrastinamos, quando somos preguiçosos ou quando realizamos nossa vocação de modo superficial. Caim projeta esse desprezo por si próprio sobre o irmão, e isso o conduz ao fratricídio.

A maioria de nós não chega a matar literalmente os próprios irmãos nesse estado de espírito. Porém, de maneiras menores, podemos expressar ressentimento ou raiva contra o próximo, por exemplo nas críticas agressivas ou nos ressentimentos que manifestamos, seja na internet ou fora dela, contra instituições, grupos de pessoas, políticos, e assim por diante.

É apenas algo sobre o qual estou refletindo hoje, enquanto nesta semana temos ouvido, nas leituras do Gênesis, a história de Caim e Abel.

Senhor, ajuda-me a realizar hoje a pequena parte do trabalho que me chamas a fazer, segundo a minha vocação, e guarda-nos todos pela Tua graça.

Feliz quinta-feira da Segunda Semana da Quaresma, queridos amigos!

Versão brasileira: João Antunes

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