
«Uma mulher insensata e atrevida torna-se carente de pão, ela não conhece vergonha. Sentou-se às portas da sua casa num assento, às claras, na via pública, chamando pelos transeuntes e pelos que estão direitos nos seus caminhos. “Aquele de vós que for o mais tolo, que ele se volte para mim. E aos carentes de entendimento eu dou incentivo dizendo: ‘Tomai agradavelmente pães escondidos! E água de roubo doce!’” Ele, porém, não sabe que nascidos da terra junto dela perecem; e depara com um poleiro do Hades. Mas corre! Não fiques nesse lugar! Nem fixes nela o teu olho. Pois deste modo passarás por água estranha e atravessarás um rio estranho. Abstém-te de água estranha; e de uma fonte estranha não bebas, para que vivas muito tempo e te sejam acrescentados anos de vida.» (Provérbios 9,13-18¹)
Peço desculpas pelo tema um pouco delicado. No entanto, esta passagem de Provérbios faz parte das leituras da Igreja para hoje, a terceira quarta-feira da Quaresma, e creio que lança alguma luz sobre o “pão escondido” e o tormento oculto de muitas pessoas nos dias de hoje, inclusive entre cristãos ortodoxos: a pornografia na internet.
Recentemente ouvi de um sacerdote ortodoxo que essa questão aparece com bastante frequência nas confissões de fiéis.
Creio que o trecho citado acima, embora tenha sido escrito há mais de dois mil anos e não estivesse falando diretamente da pornografia digital de hoje, revela muito bem o tipo de mentalidade e de espírito por trás disso. A Escritura chama isso de “pão escondido” e “água estranha”.
É ao mesmo tempo “pão” e “água”, ou seja, satisfaz certa fome e sacia certa sede. Porém é “água estranha” e também “água de roubo doce”, algo que não é saudável nem corresponde às nossas necessidades reais. É um impostor, um substituto falso para a realização dos desejos e impulsos que Deus nos concedeu.
Todo ser humano recebeu de Deus desejos e impulsos, inclusive físicos, para crescer, amadurecer e tornar-se útil a si mesmo e aos outros. Para uma pessoa de fé, esses desejos precisam ser discernidos e orientados de acordo com a própria vocação verdadeira, e não segundo os caprichos de “uma mulher insensata e atrevida”, como a pornografia na internet, que, “carente de pão”, vem apenas em busca de um pedaço de nós.
Não fomos chamados a desperdiçar a nossa vontade com impostores.
Que eu não “não fique nesse lugar” e “nem fixe o meu olho” nessa “mulher insensata e atrevida” que é a pornografia na internet, que tenta desviar a mim “que estou direito no meu caminho” e desperdiçar os desejos e energias que Deus me concedeu, nessa sua “fonte estranha”.
E se ela já me seduziu a partilhar os seus sujos segredinhos, que eu os revele na confissão, para que não volte mais a compartilhá-los com ela.
Ó Senhor, hoje entrego as minhas energias e a minha vontade aos Teus cuidados, para que eu possa ser útil a Ti, a mim mesmo e ao próximo, em vez de desperdiçar o meu tempo.
Amén.
Versão brasileira: João Antunes
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¹ Tradução da Septuaginta ao português pelo Prof. Frederico Lourenço
