QUANDO OS ASSASSINOS CREEM QUE ESTÃO SERVINDO A DEUS

há-de chegar mesmo a hora em que quem vos matar julgará que presta um serviço a Deus!” (João 16,2b)

As palavras finais da leitura do Evangelho deste sábado, citadas acima, têm estado em minha mente desde que a Rússia invadiu a Ucrânia em 24 de fevereiro do ano passado, com a bênção e o apoio expressivo de muitos representantes de nossa amada Igreja Ortodoxa Russa. Ao mesmo tempo, houve os apelos “apolíticos” por paz e oração pelos dois lados do “conflito” da maioria das vozes da Igreja Ortodoxa, não apenas na Rússia, mas também entre nós, no Ocidente. Em seguida, vieram nossos muitos silêncios sobre Mariupol, Bucha e muitas outras atrocidades, incluindo o assassinato contínuo de civis, o bombardeio de suas casas, escolas e infraestrutura, também durante o frio inverno de 2022-2023, e a deportação de crianças ucranianas. Também devo mencionar nosso silêncio sobre a perseguição, na Rússia, aos corajosos clérigos e leigos que se manifestaram contra a guerra ou simplesmente oraram pela “paz” em vez da “vitória”. A postura de muitos em nossa igreja foi explicada pela suposta necessidade de ficar “fora da política”, por isso não citamos explicitamente o presidente Putin e seu regime como os agressores.

Mudamos essa postura “apolítica” apenas recentemente, e não foi para condenar tudo o que foi dito acima. Não foi para condenar a agressão do regime de Putin contra milhões de civis, mas para condenar a vítima nessa história trágica: foi para condenar o governo Zelensky, depois de travar uma guerra defensiva por mais de um ano, por suas tentativas (não violentas e também malsucedidas) de retirar do coração de Kyiv, do Monastério das Cavernas de Kiev, cerca de 200 monges com vínculos canônicos com a Igreja da Rússia. Essa foi a grande “atrocidade” que levou até mesmo nossas autoridades eclesiásticas a falar em alto e bom tom, a usar palavras políticas sobre direitos humanos e liberdades, e até mesmo a nomear o suposto agressor, o governo Zelensky. Isso faz sentido? A situação de moradia de 200 monges merece nossa atenção ativa e expressiva mais do que a própria vida de milhões de civis? E por que não somos conclamados à paz e à oração (silenciosa), da mesma forma como se trata de uma injustiça contra monges, quando se trata de atrocidades contra milhões de pessoas?

Penso que isso se deva ao fato de muitos de nós, na Igreja Ortodoxa, estarmos confusos quanto a quem é a vítima nessa guerra. Acreditamos na narrativa do Kremlin, repetida várias vezes por S. Lavrov, pelo Patriarca Kirill e por outros representantes do regime Putin, de que, de alguma forma, a Rússia tinha que começar toda a matança na Ucrânia para defender o bem, como os valores da família ou os valores tradicionais, ou a “Santa Rus’”, que supostamente representa tudo isso. Mas se aceitarmos essa narrativa, estaremos de fato crendo que matar dezenas de milhares de pessoas — pessoas que não nos atacaram — é de alguma forma um serviço a Deus. “Há-de chegar mesmo a hora em que quem vos matar julgará que presta um serviço a Deus”, diz o Senhor. Portanto, não adotemos esse tipo de pensamento perverso e assassino, e não culpemos as vítimas desse tipo de pensamento na Ucrânia, que lutam desesperada e corajosamente para acabar com ele.

Versão brasileira: João Antunes

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