
Além de ser o Dia de São Valentim neste sábado, uma data dedicada à celebração do amor romântico, também é, nas Igrejas Ortodoxas, o “Sábado da Despedida da Carne” que precede a Quaresma, assim chamado porque neste fim de semana nos despedimos do consumo de carne. Nesse dia, faz-se memória de todos os falecidos. Na verdade, desde os tempos antigos do Cristianismo, todo sábado era dedicado à recordação dos finados e de “todos os santos”, antes que outras comemorações e festas fossem gradualmente sendo incorporadas ao calendário eclesiástico, muitas vezes obscurecendo o sentido original desse dia. Nota histórica: o período da Quaresma nos reconecta com muitas das tradições mais antigas, porque os grandes tempos litúrgicos, como a Quaresma e o ciclo da Páscoa até Pentecostes, permaneceram menos alterados ao longo do tempo do que o restante do ano litúrgico.
Reflitamos um pouco sobre o significado antigo do sábado, o Sabbath, e vejamos como podemos integrá-lo a este Dia de São Valentim. A palavra hebraica para sábado, “shabat” (שָׁבַת֙), frequentemente traduzida como “Ele repousou”, significa literalmente “Ele cessou” ou “Ele interrompeu”, recordando as palavras de Gênesis 2,3, segundo as quais Deus cessou, no sétimo dia da semana, a obra específica que havia realizado ao longo dos seis dias da Criação. Isso não foi um convite para que os seres humanos se tornassem deístas, acreditando equivocadamente que Deus teria deixado de intervir em nossas vidas ou de agir conosco. Ao contrário, foi um sinal de que Deus passava a confiar a nós, criaturas semelhantes a Ele, criadas no sexto dia, a continuidade de Sua obra criadora, fazendo “crescer e multiplicar” tudo aquilo que Ele nos havia concedido.
Nossas capacidades criativas sempre deveriam ser inspiradas e vivificadas por nossa Fonte de Vida, Deus, em harmonia e comunhão com Sua vontade fiel, cheia de esperança e amor por nós e pelo mundo. O que nos faz “agir” corretamente, em sintonia com a vontade divina, e o que nos impulsiona a avançar para “crescer e multiplicar” de modo adequado, tenhamos ou não filhos, é a fé, a esperança e o amor por Deus e uns pelos outros, três realidades que o Seu Espírito sopra em nossos corações na comunhão com Ele.
Tanto o Sábado Memorial quanto o Dia de São Valentim são ocasiões para celebrar os impulsos que Deus nos deu e que nos movem adiante e nos ajudam a crescer, a “crescer e multiplicar”, em vez de nos diminuir: fé, esperança e amor. Quer hoje estejamos de luto por nossos entes queridos falecidos, ou por alguém amado de quem estejamos separados, quer celebremos a pessoa amada que está ao nosso lado, podemos recordar com gratidão que é Deus quem nos concede a capacidade de sofrer, de desejar e de aspirar por “mais”, não para nos diminuir, mas para nos fazer crescer rumo ao “mais” que Ele preparou para nós.
Aqui na terra recebemos apenas vislumbres da unidade última que todos desejamos. Às vezes canalizamos esse desejo para uma única pessoa, nosso amado ou amada, e, se o sentimento é correspondido, isso é um grande dom. Também é um grande dom quando não é correspondido, se conseguimos “entregar e confiar a Deus”, pois isso nos ajuda a compreender melhor quem somos e a nos redirecionar. Em todo caso, cedo ou tarde, por diversos motivos, essa “única pessoa” não será suficiente para preencher o espaço em forma de Deus em nosso coração, que “geme”, como escreve São Paulo, desejando algo maior: “Sabemos, com efeito, que, quando a nossa morada terrestre, a nossa tenda, for destruída, temos uma habitação no Céu, obra de Deus, uma casa eterna, não construída por mãos humanas. E por isso, gememos nesta tenda, ansiando por revestir-nos daquela habitação celeste…” (2ª Coríntios 5,1s).
Neste sábado, meus queridos amigos e até adversários, sejamos gratos por nossos amores e por nossas perdas, direcionando-os a Deus e renovando n’Ele nossa fé, esperança e amor, na certeza de Sua presença viva e imperecível no meio de nós.
Versão brasileira: João Antunes
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