
«Deixando a sinagoga, Jesus entrou em casa de Simão. A sogra de Simão estava com muita febre, e intercederam junto dele em seu favor. Inclinando-se sobre ela, ordenou à febre e esta deixou-a; ela erguendo-se, começou imediatamente a servi-los. Ao pôr-do-sol, todos quantos tinham doentes, com diversas enfermidades, levavam-lhos; e Ele, impondo as mãos a cada um deles, curava-os. Também de muitos saíam demônios, que gritavam e diziam: ‘Tu és o Filho de Deus!’. Mas Ele repreendia-os e não os deixava falar, porque sabiam que Ele era o Messias. Ao romper do dia, saiu e retirou-se para um lugar solitário. As multidões procuravam-no e, ao chegarem junto dele, tentavam retê-lo, para que não se afastasse delas. Mas Ele disse-lhes: ‘Tenho de anunciar a Boa-Nova do Reino de Deus também às outras cidades, pois para isso é que fui enviado’. E pregava nas sinagogas da Judeia.» (Lucas 4,38-44)
No Evangelho de hoje, Jesus entra na casa de Simão e encontra sua sogra enferma. Ele Se inclina sobre ela, repreende a febre, e a mulher, uma vez restabelecida, começa a servir. Depois, ao cair da tarde, toda a cidade parece reunir-se à porta: doentes, aflitos, pessoas atormentadas. Jesus os acolhe, cura muitos e, na manhã seguinte, retira-se para um lugar deserto.
Há algo muito bonito nessa sequência: Jesus cura, mas também sabe retirar-se. Ele não transforma o sofrimento humano em espetáculo, nem permite que a multidão determine o ritmo de sua missão.
E talvez precisemos ouvir isso justamente agora.
Enquanto lemos este Evangelho, o mundo continua ferido. A guerra na Ucrânia entrou, segundo uma advertência recente da ONU, em uma fase de maior risco, com aumento das mortes de civis e preocupação com uma possível expansão regional do conflito. No Oriente Médio, também continuam as tensões entre Estados Unidos e Irã, embora ainda existam esforços diplomáticos.
E aqui no Brasil, dentro de apenas seis dias, iremos às urnas. No dia 4 de outubro, escolheremos presidente e vice-presidente, governadores e vice-governadores, senadores e deputados federais, estaduais ou distritais.
É interessante colocar tudo isso diante do Evangelho.
Porque uma eleição também pode revelar nossas febres: medo, raiva, ansiedade, idolatria política, desinformação, desejo de encontrar em um candidato aquilo que somente Deus pode oferecer. Podemos transformar políticos em salvadores e adversários em inimigos absolutos. E, quando fazemos isso, já não estamos apenas escolhendo representantes. Estamos entregando a eles um lugar que não lhes pertence.
Jesus, entretanto, entra justamente no meio da nossa enfermidade.
Ele não nos pede indiferença diante do mundo. Ao contrário, o Evangelho nos chama a cuidar dos que sofrem, buscar a verdade, defender a dignidade humana e trabalhar pela paz. Mas também nos ensina a não deixar que o barulho do mundo ocupe todo o espaço dentro de nós.
Talvez seja esse o pequeno exercício espiritual destes próximos seis dias: informar-se sem se intoxicar, escolher sem idolatrar, discordar sem odiar e votar sem transformar a política em religião.
Depois de curar muitos, Jesus foi para um lugar deserto.
Talvez nós também precisemos de um pouco de deserto antes de entrar na cabine de votação.
Um lugar silencioso onde possamos perguntar, diante de Deus:
“Senhor, livra-me do medo, da mentira e do ódio. Dá-me sabedoria para escolher com consciência e um coração capaz de continuar amando aqueles que escolherão diferente de mim.”
Porque o Reino de Deus não será estabelecido pelo resultado de uma eleição.
Mas o modo como tratamos uns aos outros durante uma eleição pode revelar muito sobre o quanto já permitimos que esse Reino transforme nosso coração.
