
«O que quiserdes que os outros vos façam, fazei-lho vós também. Se amais os que vos amam, que agradecimento mereceis? Os pecadores também amam aqueles que os amam. Se fazeis bem aos que vos fazem bem, que agradecimento mereceis? Também os pecadores fazem o mesmo. E, se emprestais àqueles de quem esperais receber, que agradecimento mereceis? Também os pecadores emprestam aos pecadores, a fim de receberem outro tanto. Vós, porém, amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem nada esperar em troca. Então, a vossa recompensa será grande e sereis filhos do Altíssimo, porque Ele é bom até para os ingratos e os maus. Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso.» (Lucas 6,31-36)
No dia das eleições, talvez uma das coisas mais difíceis seja lembrar que o Evangelho continua valendo também quando apertamos os botões da urna.
Jesus nos diz: “O que quiserdes que os outros vos façam, fazei-lho vós também”.
É uma frase tão conhecida que corremos o risco de deixá-la passar como um daqueles cafezinhos que tomamos pela manhã: gostoso, reconfortante e rapidamente esquecido. Mas Jesus não está oferecendo uma frase bonita. Está nos propondo um modo de viver.
Hoje podemos escolher candidatos diferentes, defender projetos diferentes, enxergar o futuro do país de maneiras diferentes. Isso faz parte da vida democrática. O problema começa quando transformamos o adversário político em inimigo pessoal, quando deixamos de enxergar nele uma pessoa criada à imagem de Deus.
E aqui o Evangelho fica ainda mais exigente: “Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, abençoai os que vos amaldiçoam, rezai pelos que vos caluniam” (Lucas 6,27b-28).
Não é exatamente o tipo de conselho que costuma bombar nas redes sociais durante uma eleição!
Mas talvez seja justamente por isso que precisamos ouvi-lo.
Jesus não nos pede para concordarmos com todos. Não pede que abandonemos nossas convicções, nem que chamemos o mal de bem. Ele nos pede algo muito mais difícil: que não permitamos que a discordância destrua nossa humanidade.
Podemos votar com consciência e, depois, continuar sendo irmãos.
Podemos discordar sem humilhar.
Podemos criticar sem odiar.
Podemos defender nossas ideias sem transformar ninguém em monstro.
E há uma pequena oração que poderíamos levar conosco para a urna:
“Senhor, dá-me sabedoria para escolher, serenidade para respeitar e humildade para lembrar que nenhum candidato é meu salvador. Meu Salvador és Tu.”
No fim das contas, a grande pergunta do Evangelho não é apenas “em quem você votou?”
É também:
“Que tipo de pessoa você se tornou enquanto defendia aquilo em que acredita?”
Que Deus abençoe o Brasil, suas eleitoras e seus eleitores. E que, depois da apuração, qualquer que seja o resultado, ainda sejamos capazes de olhar uns para os outros e reconhecer: somos um povo, somos irmãos e continuamos precisando uns dos outros.
E talvez seja essa a pequena revolução que Jesus espera de nós.
